Olavo de Carvalho. O mínimo que você precisa saber para não ser idiota.

via Olavo de Carvalho. O mínimo que você precisa saber para não ser idiota.

CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser idiota. Organização Felipe Moura Brasil, Rio de Janeiro, Record, 2013.

Introdução

“Em grego, idios quer dizer “o mesmo”. Idiotes, de onde veio o nosso termo “idiota”, é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez.” p.13

“Os pequenos canalhas se aproveitam da idiotice pronta. Os grandes a fabricam.” p.18

“deixando claro que não fará isso por você, porque a educação é uma conquista pessoal. “Educação”, ensina ele, “vem de ex ducere, que significa levar para fora”” p.19

Juventude

“O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a vencer.” p.29

“A família surge como o bode expiatório providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.” p.30

“Humildade significa, no fundo, apenas senso do real.” p.33

“Em casos como esse, uma opinião política singular se sobrepõe de tal modo aos princípios fundantes do próprio raciocínio que uma pessoa neurologicamente normal acaba tendo o desempenho cerebral de um mongoloide. Outro dia encontrei na internet um site de jovens homossexuais que demonizavam os EUA, terra de promissão do movimento gay, e defendiam entusiasticamente as ditaduras islâmicas, nas quais o homossexualismo é crime punido com a morte. Na antiga retórica greco-latina, isso chamava-se “argumento suicida”, como no caso de um judeu que fizesse propaganda nazista. O argumento suicida era tão raro que os manuais de retórica mal o citavam. Hoje em dia, tornou-se a coisa mais comum do mundo e, nas falas de estudantes brasileiros, quase um paradigma. Os exemplos que citei são só dois entre milhares. Quanto mais lisonjeada por pais e educadores, mais a juventude se torna estúpida e incapaz, anunciando uma maturidade de ressentidos, fracassados e invejosos.” p.34

Conhecimento

“Experimentai de tudo, e ficai com o que é bom”, aconselha o apóstolo. Experiência, tentativa e erro, constante reflexão e revisão do itinerário — tais são os únicos meios pelos quais um homem pode, com a graça de Deus, adquirir conhecimento. Isso não se faz do dia para a noite. “Veritas filia temporis”, dizia São Tomás de Aquino: a verdade é filha do tempo. Não me venham com fulgurações místicas e intuições súbitas. Que las hay, las hay, mas mesmo elas requerem preparação, esforço, humildade, tempo. Até Cristo, no cume da agonia, lançou ao ar uma pergunta sem resposta. Por que nós, que só somos filhos de Deus por delegação, teríamos o direito congênito a respostas imediatas?” p.38

“O aprendizado é impossível sem o direito de errar e sem uma longa tolerância para com o estado de dúvida. Mais ainda: não é possível o sujeito orientar-se no meio de uma controvérsia sem conceder a ambos os lados uma credibilidade inicial sem reservas, sem medo, sem a mínima prevenção interior, por mais oculta que seja. Só assim a verdade acabará aparecendo por si mesma. O verdadeiro homem de ciência aposta sempre em todos os cavalos, e aplaude incondicionalmente o vencedor, qualquer que seja. A isenção não é desinteresse, distanciamento frio: é paixão pela verdade desconhecida, é amor à ideia mesma da verdade, sem pressupor qual seja o conteúdo dela em cada caso particular.” p.38

“quando se perde o sentido da unidade da inteligência por trás de todas essas operações parciais. A inteligência, com efeito, não é uma função, uma faculdade em particular: é a expressão da pessoa inteira enquanto sujeito do ato de conhecer. A inteligência não é um instrumento, um aspecto, um órgão do ser humano: ela é o ser humano mesmo, considerado no pleno exercício daquilo que nele há de mais essencialmente humano.” p.39

“Perguntaram-me uma vez, num debate, como definia a honestidade intelectual. Sem pestanejar, respondi: é você não fingir que sabe aquilo que não sabe, nem que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem. Se sei, sei que sei. Se não sei, sei que não sei. Isto é tudo. Saber que sabe é saber; saber que não sabe é também saber. A inteligência não é, no fundo, senão o comprometimento da pessoa inteira no exercício do conhecer, mediante uma livre decisão da responsabilidade moral. Daí que ela seja também a base da integridade pessoal, quer no sentido ético, quer no sentido psicológico. Todas as neuroses, todas as psicoses, todas as mutilações da psique humana se resumem, no fundo, a uma recusa de saber. São uma revolta contra a inteligência. Revoltas contra a inteligência — psicoses, portanto, à sua maneira — são também as ideologias e filosofias que negam ou limitam artificiosamente o poder do conhecimento humano, subordinando-o à autoridade, ao condicionamento social, ao beneplácito do consenso acadêmico, aos fins políticos de um partido, ou, pior ainda, subjugando a inteligência enquanto tal a uma de suas operações ou aspectos, seja a razão, seja o sentimento, seja o interesse prático ou qualquer outra coisa.” p.40

Albert Schweitzer, em Minha infância e mocidade, lembra o instante em que pela primeira vez sentiu vergonha de si. Ele tinha por volta de 3 anos e brincava no jardim. Veio uma abelha e picou-lhe o dedo. Aos prantos, o menino foi socorrido pelos pais e por alguns vizinhos. De súbito, o pequeno Albert percebeu que a dor já havia passado fazia vários minutos e que continuava a chorar só para obter a atenção da plateia. Ao relatar o caso, Schweitzer era um septuagenário. Tinha atrás de si uma vida realizada, uma grande vida de artista, de médico, de filósofo, de alma cristã devotada ao socorro dos pobres e doentes. Mas ainda sentia a vergonha dessa primeira trapaça. Esse sentimento atravessara os anos, no fundo da memória, dando-lhe repuxões na consciência a cada nova tentação de autoengano. Notem que, em volta, ninguém tinha percebido nada. Só o menino Schweitzer soube da sua vergonha, só ele teve de prestar contas de seu ato ante sua consciência e seu Deus. Estou persuadido de que as vivências desse tipo — os atos sem testemunha, como costumo chamá-los — são a única base possível sobre a qual um homem pode desenvolver uma consciência moral autêntica, rigorosa e autônoma. Só aquele que, na solidão, sabe ser rigoroso e justo consigo mesmo — e contra si mesmo — é capaz de julgar os outros com justiça, em vez de se deixar levar pelos gritos da multidão, pelos estereótipos da propaganda, pelo interesse próprio disfarçado em belos pretextos morais.” p.41

“à responsabilidade de cada um saber o que fez quando não havia alguém olhando.” p.42

Durante dois milênios, um ambiente assim foi criado e sustentado pela prática cristã do “exame de consciência”. Há equivalentes dela em outras tradições religiosas e místicas, mas nenhum na cultura laica contemporânea. Há as psicanálises, as psicoterapias, mas só funcionam nesse sentido quando conservam a referência religiosa à culpa pessoal e ao seu resgate pela confissão diante de Deus. E, à medida que a sociedade se descristianiza (ou, mutatis mutandis, se desislamiza, se desjudaíza etc.), essa referência se dissolve e as técnicas clínicas tendem justamente a produzir o efeito oposto: a abolir o sentimento de culpa, trocando-o ora por um endurecimento egoísta confundido com “maturidade”,ora por uma adaptatividade autocomplacente, desfibrada e cafajeste, confundida com “sanidade.” p.42

Vocação

“O que está omitido na pergunta acima é a possibilidade de que alguém se dedique de todo o coração a alguma coisa sem ser por necessidade econômica nem por prazer — ou, pior ainda, que continue se dedicando a ela como se fosse a coisa mais importante do mundo mesmo quando só dá prejuízo e dor de cabeça. O que está omitido nessa pergunta — e no modo brasileiro de ver as coisas — é aquilo que se chama vocação.” “Vocação vem do verbo latino vocovocare, que quer dizer “chamar”. Quem faz algo por vocação sente que é chamado a isso pela voz de uma entidade superior — Deus, a humanidade, a história, ou, como diria Viktor Frankl, o sentido da vida.” p.47

“Denomina-se ‘ideal’ a síntese em que se fundem, numa só forma e numa só energia, a ideia do sentido da vida e a do preço de sua realização: dizse que um homem tem um ideal quando sabe em qual direção tem de ir para tornar-se aquilo que almeja, e quando está firmemente decidido a ir nessa direção. (…) O ideal é, por isto, condição indispensável para a coesão da personalidade, que sem ele se dispersa em aspirações fortuitas e esforços estéreis. Miragem e emblema, sua visão nos dinamiza, nos eleva e enobrece, e é sempre a lembrança do seu apelo que nos reergue após cada erro e cada desengano” p.55

Cultura

“Língua, religião e alta cultura são os únicos componentes de uma nação que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica. São os valores universais, que, por servirem a toda a humanidade e não somente ao povo em que se originaram, justificam que ele seja lembrado e admirado por outros povos. A economia e as instituições são apenas o suporte, local e temporário, de que a nação se utiliza para seguir vivendo enquanto gera os símbolos nos quais sua imagem permanecerá quando ela própria já não existir.” p.65

“Por isso esses elementos, os mais distantes de todo interesse econômico, são as únicas garantias do êxito no campo material e prático. Todo povo se esforça para dominar o ambiente material. Se só alguns alcançam o sucesso, a diferença, como demonstrou Thomas Sowell em Conquests and Cultures, reside principalmente no “capital cultural”, na capacidade intelectual acumulada que a mera luta pela vida não dá, que só se desenvolve na prática da língua, da religião e da alta cultura.”

“Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades nacionais naqueles três domínios antecede as realizações político-econômicas.”

“A França foi o centro cultural da Europa muito antes das pompas de Luís XIV. Os ingleses, antes de se apoderar dos sete mares, foram os supremos fornecedores de santos e eruditos para a Igreja. A Alemanha foi o foco irradiador da Reforma e em seguida o centro intelectual do mundo — com Kant, Hegel e Schelling — antes mesmo de constituir-se como nação. Os EUA tinham três séculos de religião devota e de valiosa cultura literária e filosófica antes de lançar-se à aventura industrial que os elevou ao cume da prosperidade. Os escandinavos tiveram santos, filósofos e poetas antes do carvão e do aço. O poder islâmico, então, foi de alto a baixo criatura da religião — religião que seria inconcebível se não tivesse encontrado, como legado da tradição poética, a língua poderosa e sutil em que se registraram os versículos do Corão. E não é nada alheio ao destino de espanhóis e portugueses, rapidamente afastados do centro para a periferia da História, o fato de terem alcançado o sucesso e a riqueza da noite para o dia, sem possuir uma força de iniciativa intelectual equiparável ao poder material conquistado.” p.66

“Difícil é admitir que um problema tão geral deve ter causas também gerais, isto é, que não pertence àquela classe de obstáculos que podem ser removidos pela ação oficial, mas àquela outra que só nós mesmos, o povo, a “sociedade civil”, estamos à altura de enfrentar, não mediante mobilizações públicas de entusiasmo epidérmico, e sim mediante a convergência lenta e teimosa de milhões de ações anônimas, longe dos olhos turvos da nossa vã sociologia.”

“Ora, a condição mais óbvia para o desenvolvimento da inteligência é a organização do saber. Nossas energias intelectuais mobilizam-se mais facilmente em torno de uns poucos núcleos de interesse fortemente hierarquizados do que numa dispersão de focos de atenção espalhados no ar como mosquitos. Discernir o importante do irrelevante é o ato inicial da inteligência, sem o qual o raciocínio nada pode senão patinar em falso em cima de equívocos. Se, porém, cada homem tivesse de realizar por suas forças essa operação, reduzindo a um esquema quintessencial de sua própria invenção a totalidade dos dados disponíveis no ambiente físico, milhões de vidas não bastariam para que ele chegasse a obter um começo de orientação no mundo. A cultura, impregnada na sociedade em torno e resultado de sucessivas filtragens da experiência acumulada, dá pronto a cada ser humano um quadro dos ângulos de interesse essencial, de modo que não resta ao indivíduo senão operar nesse mostruário um segundo recorte, em conformidade com os seus interesses pessoais.”

“Quando digo que a cultura está impregnada na sociedade em torno, isto significa que a seleção dos pontos importantes transparece na organização das cidades, nos monumentos públicos, no estilo arquitetônico, nos museus, nos cartazes dos teatros, na imprensa, nos debates entre as pessoas letradas, nos giros da linguagem corrente, nas estantes das livrarias e, last not least, nos programas de ensino.” p.68

“Desde logo, a palavra “cultura” já evoca, na mente desse público, a ideia errada. “Cultura”, no Brasil, significa antes de tudo “artes e espetáculos” — e as artes e espetáculos, por sua vez, se resumem a três funções: dar um bocado de dinheiro aos que as produzem, divertir o povão e servir de caixa de ressonância para a propaganda política.”

“Que a cultura devesse também tornar as pessoas mais inteligentes, mais sérias, mais adultas, mais responsáveis por suas ações e palavras, é uma expectativa que já desapareceu da consciência nacional faz muito tempo. Se o artista cumpre as três funções acima, nada mais lhe é exigido nem mesmo para lhe garantir o rótulo de gênio. Foi preciso, no festival de Paraty, uma escritora irlandesa (Edna O’Brien) vir avisar aos brasileiros que Chico Buarque de Holanda não faz parte da literatura. Por si mesmos, jamais teriam percebido isso. Nos cursos universitários de letras, produzem-se milhares de teses sobre Caetano Veloso e o próprio Chico, enquanto escritores de primeira ordem e já consagrados pelo tempo, como Rosário Fusco, Osman Lins ou José Geraldo Vieira, são ignorados já não digo só pelos estudantes, mas pelos professores. Até a Academia Brasileira, nominalmente incumbida de manter alto o padrão das letras nacionais, de há muito já não sabe distinguir entre o que é um escritor e o que não é. A hipótese de que o sejam os senhores Luis Fernando Verissimo, Paulo Coelho e Marco Maciel jamais passaria pela cabeça de alguém habilitado, digamos, a compreender razoavelmente um poema de Eliot ou a perceber a diferença de fôlego entre Claudel e Valéry, isto é, de alguém que tenha ao menos uma ideia aproximada do que é literatura.” p.72

“No começo do século XX, houve uma série de antropólogos que saíram pelo mundo fazendo recenseamentos dos usos e costumes dos vários lugares. Quando notaram que aquilo que era proibido num lugar era obrigatório no outro, tiraram a conclusão de que todas as normas eram culturalmente relativas. Isto foi especialmente divulgado no mundo por Margareth Mead e Jules Benedict. Eles fizeram um sucesso tão grande que, hoje em dia, essa convicção do relativismo antropológico é tida como um dogma: todas as morais são culturalmente relativas. É no mínimo curioso que nunca ninguém tenha feito a seguinte contraposição: me aponte uma sociedade onde o homicídio seja legítimo. Ou, me aponte uma sociedade onde o casamento seja proibido. Ou, me aponte uma sociedade onde qualquer forma de conhecimento seja proibido. Simplesmente não existem tais sociedades. Isso quer dizer que, por baixo da variação acidental de normas aqui ou ali, existe uma infinidade de normas universais que nunca foram contestadas por civilização ou cultura alguma. A lista das regras e normas permanentes é infinitamente maior do que a das normas variáveis. Isso quer dizer que esses antropólogos, baseados em sua pequena experiência acidental de ter conhecido uma ou duas comunidades, generalizaram para a espécie humana, de modo que a visão total da humanidade fica reduzida ao tamanhinho da amplitude de consciência de dois ou três antropólogos, que viram meia dúzia de coisas” p.74

Pobreza

“Neste país você não pode pedir emprego e muito menos dinheiro emprestado a um conhecido sem que ele instantaneamente assuma ares paternais e comece a lhe dar conselhos, a ralhar com você chamando-o de irresponsável, leviano e miolo-mole. E dê graças a Deus de que o faça em tom bonachão e não transforme a humilhação sutil em massacre ostensivo. Finda a cena, sai todo satisfeito, com a consciência do dever cumprido, e considera-se dispensado de lhe arranjar o emprego ou o dinheiro. E você? Bem, você sai duro, desempregado… e culpado.

Esse mesmo sujeito é capaz de, na mesma noite, oferecer um jantar tomando o máximo cuidado para que a arrumação da mesa e a distribuição dos convidados obedeçam estritamente às regras da mais fina etiqueta.

Um indício seguro de barbarismo num povo é a atenção excessiva concedida aos sinais convencionais de boa educação e o desprezo ou a ignorância dos princípios básicos da convivência que constituem a essência mesma da boa educação.

O bárbaro, o selvagem, pode decorar as regras e imitá-las na frente de quem acha que liga para elas. Mas não capta o espírito delas, não percebe que são apenas uma cartilha de solicitude, de atenção, de bondade, que pode ser abandonada tão logo a gente aprende o verdadeiro sentido do que é ser solícito, atencioso e bom.

Meu pai era um sujeito relaxado, que às vezes ia de pijama receber as visitas. Mas chamava de “senhor” cada mendigo que o abordava na rua, e sem que ele me dissesse uma palavra aprendi que o homem em dificuldades necessitava de mais demonstrações de respeito do que as pessoas em situação normal. Quanto mais respeitoso, mais cuidadoso, mais escrupuloso cada um não deveria ser então com um amigo que, vencendo a natural resistência de mostrar inferioridade, vem lhe pedir ajuda! Esta regra elementar é sistematicamente ignorada entre as nossas classes médias e altas, principalmente por aquelas pessoas que se imaginam as mais cultas, as mais civilizadas e — valha-me Deus!— as mais amigas dos pobres.

Fico horrorizado quando vejo alguém enxotar um flanelinha como se fosse um cachorro, e nunca vi alguém fazê-lo com a desenvoltura, o aplomb, a consciência tranquila de um intelectual de esquerda! Nos anos 1960, corria o dito de que ajudar os pobres individualmente era “alienação burguesa”, ópio sentimental, sucedâneo da revolução salvadora. Passaram-se quarenta anos, a revolução salvadora não veio (onde veio, os pobres ficaram mais pobres ainda) e duas gerações de necessitados apertaram ainda mais os cintos em homenagem à prioridade da revolução. Mas não conheço um só militante comunista do meu tempo e do meu meio que não esteja com a vida ganha, que não ostente como um sinal de maturidade triunfante a segurança financeira adquirida graças ao apadrinhamento da máfia política que, até hoje, domina o mercado de empregos na imprensa, na publicidade, no ensino superior e no mundo editorial.

Hoje não precisam mais do pretexto revolucionário para enxotar flanelinhas. Seu discurso tornou-se palavra oficial. As prefeituras e governos estaduais nos advertem, em cartazes piedosos, para não dar esmolas. Sim, a caridade individual está em baixa. Os frutos da bondade humana não devem ir direto para o bolso do necessitado: devem ir para as ONGs e os órgãos públicos, sustentando funcionários e diretores, financiando movimentos políticos, pagando despesas de aluguel, administração, publicidade e transporte, para no fim, bem no fim, se sobrar alguma coisa, virar sopa dos pobres, diante das câmeras, para a glória de São Betinho.

Há quem neste país tenha nojo da corrupção oficial. Pois eu tenho é da caridade oficial.

Ainda há quem diga: “Mas se você dá dinheiro o sujeito vai beber na primeira esquina!” Pois que beba! Tão logo o embolsou, o dinheiro é dele. Vocês querem educar o pobre “para a cidadania” e começam por lhe negar o direito de gastar o próprio dinheiro como bem entenda? Querem educá-lo sem primeiro respeitá-lo como um cidadão livre que, atormentado pela miséria, tem o direito de encher a cara tanto quanto o faria, mutatis mutandis, um banqueiro falido? Querem educálo impingindo-lhe a mentira humilhante de que sua pobreza é uma espécie de menoridade, de inferioridade biológica que o incapacita para administrar os três ou quatro reais que lhe deram de esmola? Não! Se querem educá-lo, comecem pelo mais óbvio: sejam educados. Digam “senhor”, “senhora”, perguntem onde mora, se o dinheiro que lhes deram basta para chegar lá, se precisa de um sanduíche, de um remédio, de uma amizade. Façam isso todos os dias e, em três meses, verão esse homem, essa mulher, erguer-se da condição miserável, endireitar a espinha, lutar por um emprego, vencer.

Na verdade, a barreira que impede o acesso de pobres e mendicantes brasileiros a uma vida melhor é menos econômica que social. Façam um teste. Quanto custa um frango? Assado, com farofa. Cinco reais no máximo, em geral menos. Quer dizer que um mendigo, pedindo esmola em qualquer das grande capitais do Brasil, pode comer pelo menos um frango por dia, se não dois, e ainda lhe sobra o dinheiro da condução. Para você fazer uma ideia de quanto um país onde isso é possível é um país rico e generoso, tente esta comparação. Quando Franklin D. Roosevelt lançou o New Deal, um dos objetivos principais do ambicioso plano econômico foi assim anunciado pelo rádio: “Assegurar que cada família deste país tenha em sua mesa um frango por semana.” Ouviram bem? Um frango por semana para quatro ou cinco pessoas. Na época, pareceu um ideal quase utópico. Pois bem: estamos numa terra onde velhas desamparadas que se arrastam pelas ruas comem um frango por dia, onde os meninos de rua pedem esmola em frente ao McDonald’s para completar o preço de um Big Mac com fritas de três em três horas, onde os bebês famintos exibidos pelas mães em prantos usam fraldas descartáveis, onde as casas dos bairros miseráveis têm antenas parabólicas e os catadores de lixo se comunicam com seus sócios por telefones celulares.

Em contrapartida, façam outro teste: peguem um sujeito sujo e esfarrapado, encham-no de dinheiro e façam-no entrar numa loja de roupas — não digo uma loja elegante, mas qualquer uma — para comprar um terno. Será enxotado. E, se gritar “Eu tenho dinheiro!”, vai terminar na polícia, com holofote na cara, tendo de se explicar muito bem explicadinho, isto se não for obrigado a escorregar “algum” para a mão do sargento.

O mesmo pobre que pode comer um frango por dia tem de comê-lo na calçada, com os cães, porque sem acesso aos lugares reservados aos seres humanos. Está certo que você, gerente do restaurante, fique constrangido de botar um sujeito estropiado e fedido no meio dos seus clientes distintos. Mas não vê que mandá-lo comer na rua é mais falta de educação ainda? Pelo menos dêlhe de comer num cantinho discreto, converse com ele sobre as dificuldades da vida, ofereça-lhe uma camisa, uma calça.

Seja educado, caramba! Pois se você, que está bem empregado e bem vestido, tem o direito de ser grosso, que primores de polidez pode esperar do pobre? Se um dia, cansado de levar chutes, ele o manda tomar naquele lugar, não se pode dizer que esteja privado do senso das proporções. E não me venha com aquela história de “se eu tratar bem um só mendigo, no dia seguinte haverá uma fila deles na minha porta”. Isso pode ser verdade em casos isolados, mas não no cômputo final: se todos os restaurantes tratarem bem os mendigos, logo haverá mais restaurantes que mendigos. Conte os mendigos e os restaurantes da Avenida Atlântica e diga se não tenho razão. Isto sem que entrem no cálculo os bares e padarias.

O brasileiro de classe média e alta está virando uma gente estúpida que clama contra a miséria no meio da abundância porque cada um não quer usar seus recursos para aliviar a desgraça de quem está ao seu alcance, e todos ficam esperando a solução mágica que, num relance, mudará o quadro geral. Sofrem de platonismo à outrance: creem na existência de um geral em si, dotado de substância metafísica própria, independente dos casos particulares que o compõem.

Por isso é que, quando a propaganda do Collor inventou aquela coisa de “não votem em Lula porque ele vai obrigar cada família de classe alta a adotar um menino de rua”, eu me disse a mim mesmo: “Raios, se isso fosse verdade, eu ficaria satisfeito de votar no Lula.” Só acredito é em gente ajudar gente, uma por uma, não na mágica platônica das “mudanças estruturais”, pretexto de revoluções e matanças que resultam sempre em mais pobreza ainda.

Na verdade, quem acredita nelas erra até ao dar nome ao problema geral. Quando, revoltados ante a desgraça do povo brasileiro, gritamos “fome!”, algo está falhando na nossa percepção da realidade social. No mais das vezes, o que falta não é comida, não é dinheiro: é as pessoas compreenderem que a pobreza não é um estigma, não é uma desonra; é uma coisa que pode acontecer a qualquer um e da qual ninguém se liberta só com dinheiro, sem o reforço psicológico de um ambiente que o ajude a sentir-se novamente normal e, em suma, um membro da espécie humana.

Entre as causas culturais da pobreza, a principal não está nos pobres: está na falta de educação dos outros.” pp.79-82

“Na verdade, o cidadão moderno desejaria chutar todas as suas responsabilidades para o Estado: não quer proteger sua casa, mas ser protegido pela polícia; não quer educar-se para educar seus filhos, mas entregá-los a técnicos que os transformarão em robôs politicamente corretos; não quer decidir o que come, o que bebe, o que fuma ou deixa de fumar: quer que a burocracia médica lhe imponha a receita pronta; não quer crescer, ter consciência, ser livre e responsável: quer um pai estatal que o carregue no colo e contra o qual ainda possa fazer birra, batendo o pezinho na defesa dos seus “direitos”. O Estado sorri, porque sabe que, quantos mais direitos concede a esse cretino, mais leis são promulgadas, mais funcionários são contratados para aplicá-las, mais repartições burocráticas são criadas, mais impostos são cobrados para alimentá-las e, enfim, menor é a margem de liberdade de milhões de idiotas carregadinhos de direitos.” p.83

Democracia

“Em terceiro lugar, vem talvez o perigo mais grave: um consenso em favor da democracia só é promissor em aparência, porque a democracia, por definição, consiste em prescindir de todo consenso. Democracia não é concórdia: é uma maneira inteligente de administrar a discórdia. E o clamor universal por “mais democracia”, na medida mesma em que se afirma como um consenso, já dá sinais de não poder suportar nenhuma voz discordante.” p.104

“Democracia é o nome de um regime político definido pela vigência de certos direitos. Como tal, o termo só se aplica ao Estado, nunca ao cidadão, à sociedade civil ou ao sistema econômico, pois em todos os casos o guardião desses direitos é o Estado e somente ele. Só o Estado pratica — ou viola — a democracia. A sociedade civil vive nela e se beneficia de seus direitos, mas nada pode fazer a favor ou contra, exceto através do Estado. O homem que oprime seu vizinho não atenta contra “a democracia”, mas apenas contra um direito individual, o qual existe só porque o oprimido e o opressor são ambos cidadãos de um Estado democrático: democracia é o pressuposto estatal desse direito, não o exercício dele pelo sr. fulano ou beltrano. Se o mesmo direito não existisse, isto é, se o Estado não o reconhecesse, não é o opressor individual que seria antidemocrático, mas sim o Estado. Quando se diz que um cidadão “pratica a democracia” porque respeita tais ou quais direitos, o uso da palavra é rigorosamente metonímico: democrática não é a ação individual em si, mas sim o quadro jurídico e político que a autoriza ou determina.” p.105

“Isso permite que forjem alianças, alternadamente ou ao mesmo tempo, com gangues de delinquentes e com os partidos legítimos, às vezes desfrutando gostosamente de uma espécie de direito ao crime. Não é uma coincidência que, quando sobem ao poder ou se apropriam de uma parte dele, os dois favoreçam igualmente uma economia de intervenção estatista. Isto não se deve ao slogan de que “os extremos se tocam”, mas à simples razão de que nenhuma política de transformação forçada da sociedade se pode realizar sem o controle estatal da atividade econômica, pouco importando que seja imposto em nome do igualitarismo ou do nacionalismo, do futurismo utópico ou do tradicionalismo mais obstinado. Por essa razão, ambos os extremismos são sempre inimigos da direita, mas, da esquerda, só de vez em quando. A extrema esquerda só se distingue da esquerda por uma questão de grau (ou de pressa relativa), pois ambas visam em última instância ao mesmo objetivo. Já a extrema direita e a direita, mesmo quando seus discursos convergem no tópico dos valores morais ou do antiesquerdismo programático, acabam sempre se revelando incompatíveis em essência: é materialmente impossível praticar ao mesmo tempo a liberdade de mercado e o controle estatal da economia, a preservação dos direitos individuais e a militarização da sociedade. Isso é uma vantagem permanente a favor da esquerda: alianças transnacionais da esquerda com a extrema esquerda sempre existiram, como a Internacional Comunista, o Front Popular da França e, hoje, o Foro de São Paulo.4 Uma “internacional de direita” é uma impossibilidade pura e simples. Essa desvantagem da direita é compensada no campo econômico, em parte, pela inviabilidade intrínseca do estatismo integral, que obriga a esquerda a fazer periódicas concessões ao capitalismo.” p.108

“A coexistência pacífica das instituições democráticas formais com a total supressão da concorrência ideológica que define as democracias saudáveis, eis precisamente o que caracteriza a situação brasileira atual. É um quadro nitidamente psicótico, onde tudo é mentira, fingimento e pose. A farsa existencial com que a esquerda governante inventa inimigos para camuflar seu controle hegemônico tornou-se norma e padrão para o país inteiro, invadindo as consciências e expelindo cada pensamento para longe da realidade. Quem quer que, num momento de sanidade, ouse enxergar as coisas como são, sente-se imediatamente aterrorizado, ansioso para mergulhar de novo no oceano turvo de alucinações que assumiu o nome de “normalidade” p.112

“Gramsci estabeleceu uma distinção, das mais importantes, entre ‘poder’ (ou, como ele prefere chamá-lo, ‘controle’) e ‘hegemonia’. O poder é o domínio sobre o aparelho de Estado, sobre a administração, o exército e a polícia. A hegemonia é o domínio psicológico sobre a multidão. A revolução leninista tomava o poder para estabelecer a hegemonia. O gramscismo conquista a hegemonia para ser levado ao poder suavemente, imperceptivelmente. (…) O governo revolucionário leninista reprime pela violência as ideias adversas. O gramscismo espera chegar ao poder quando já não houver mais ideias adversas no repertório mental do povo” p.114

Socialismo

“O ideal socialista é, em essência, a atenuação ou eliminação das diferenças de poder econômico por meio do poder político. Mas ninguém pode arbitrar eficazmente diferenças entre o mais poderoso e o menos poderoso sem ser mais poderoso que ambos: o socialismo tem de concentrar um poder capaz não apenas de se impor aos pobres, mas de enfrentar vitoriosamente o conjunto dos ricos. Não lhe é possível, portanto, nivelar as diferenças de poder econômico sem criar desníveis ainda maiores de poder político. E como a estrutura de poder político não se sustenta no ar mas custa dinheiro, não se vê como o poder político poderia subjugar o poder econômico sem absorvê-lo em si, tomando as riquezas dos ricos e administrando-as diretamente. Daí que no socialismo, exatamente ao contrário do que se passa no capitalismo, não haja diferença entre o poder político e o domínio sobre as riquezas: quanto mais alta a posição de um indivíduo e de um grupo na hierarquia política, mais riqueza estará à sua inteira e direta mercê: não haverá classe mais rica do que os governantes. Logo, os desníveis econômicos não apenas terão aumentado necessariamente, mas, consolidados pela unidade de poder político e econômico, terão se tornado impossíveis de eliminar exceto pela destruição completa do sistema socialista. E mesmo esta destruição já não resolverá o problema, porque, não havendo classe rica fora da nomenklatura, esta última conservará o poder econômico em suas mãos, simplesmente trocando de legitimação jurídica e autodenominando-se, agora, classe burguesa. A experiência socialista, quando não se congela na oligarquia burocrática, dissolve-se em capitalismo selvagem. Tertium non datur. O socialismo consiste na promessa de obter um resultado pelos meios que produzem necessariamente o resultado inverso.” p.119

“Precisamos odiar. O ódio é a base do comunismo. As crianças devem ser ensinadas a odiar seus pais se eles não são comunistas.” (V. I. Lenin)

“Somos favoráveis ao terror organizado — isto deve ser admitido francamente.” (V. I. Lenin)

“O comunismo não é amor. É o martelo com que esmagamos nossos inimigos.” (Mao Tsé-tung)

“O ódio intransigente ao inimigo, que impulsiona o revolucionário para além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar: nossos soldados têm de ser assim.” (Che Guevara)

“Até agora os camponeses não foram mobilizados, mas, através do terrorismo e da intimidação, nós os conquistaremos.” (Che Guevara)

“Aos slogans sentimentalistas da fraternidade, opomos aquele ódio aos russos, que é a principal paixão revolucionária dos alemães. Só conseguiremos garantir a revolução mediante a mais firme campanha de terror contra os povos eslavos.” (Friedrich Engels)

“A principal missão dos outros povos (exceto os alemães, os húngaros e os poloneses) é perecer no Holocausto revolucionário… Esse lixo étnico continuará sendo, até o seu completo extermínio ou desnacionalização, o mais fanático portador da contrarrevolução.” (Karl Marx)1″ p.121

“Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade.” (Fernando Pessoa)

“Um comunista é como um crocodilo: quando ele abre a boca, você não sabe se está sorrindo ou preparando-se para devorar você.” (Winston S. Churchill)

“Ninguém pode ser comunista e preservar um pingo de integridade pessoal.” (Milovan Djilas)

“Comunismo é barbárie.” (James Russell Lowell)

“Eles (os comunistas) não precisavam refutar argumentos adversos: preferiam métodos que terminavam antes em morte do que em persuasão, que espalhavam antes o terror do que a convicção.” (Hannah Arendt)

“A política gnóstica (nazismo e comunismo) é autodestrutiva na medida em que seu desrespeito pela estrutura da realidade leva à guerra contínua: o sistema de guerras em cadeia só pode terminar de duas maneiras: ou resultará em horríveis destruições físicas e concomitantes mudanças revolucionárias da ordem social, ou, com a natural sucessão de gerações, levará ao abandono do sonho gnóstico antes que o pior tenha acontecido.” (Eric Voegelin)

“No meu estudo das sociedades comunistas, cheguei à conclusão de que o propósito da propaganda comunista não era persuadir, nem convencer, nem informar, mas humilhar e, para isso, quanto menos ela correspondesse à realidade, melhor. Quando as pessoas são forçadas a ficar em silêncio enquanto ouvem as mais óbvias mentiras, ou, pior ainda, quando elas próprias são forçadas a repetir as mentiras, perdem de uma vez para sempre todo o seu senso de probidade… Uma sociedade de mentirosos castrados é fácil de controlar.” (Theodore Dalry mple)

“Chegamos ao extremo limite dos horrores com o comunismo, o socialismo, o niilismo, deformidades horríveis da sociedade civil e quase a sua ruína.” (Leão XIII)

“O comunismo destitui o homem da sua liberdade, rouba sua personalidade e dignidade e remove todas as travas morais que impedem as irrupções do instinto cego.” (Pio XI)” p.122

“Admito que a fraqueza humana, para se defender instintivamente da atração hipnótica do mal, prefira negá-lo.”

“Mas a ignorância voluntária é, já, a vitória do mal.”

“Uma ideologia é, por definição, um simulacro de teoria científica. É, segundo a correta expressão do próprio Marx, um “vestido de ideias” que encobre interesses ou desejos. Ao aceitar definir-se na linguagem de seu adversário, o liberal moderno assume o papel que ele lhe impõe: confessa-se porta-voz dos interesses dos ricos. Que a confissão seja falsa não a torna menos eficaz. Transferida do confronto objetivo das doutrinas para o terreno da concorrência de interesses, a luta parece opor agora o explorado ao explorador. Por elegante que seja a argumentação deste último, ele estará condenado a personificar sempre o malvado da história.” p.128

“Por isso, o confronto de socialistas e liberais não opõe ideologia a ideologia: a defesa do socialismo é sempre a autoatribuição ideológica dos méritos imaginários de um futuro possível; a do capitalismo é sempre a análise científica de processos econômicos existentes e dos meios objetivos de aumentar sua eficiência.” p.129

“Por isso é tão difícil um socialista compreender o capitalismo quanto um homem formado nas regras do capitalismo entender a mentalidade socialista. Este último tentará explicar a conduta socialista pela racionalidade de interesses econômicos, acreditando que tais ou quais vantagens obtidas no caminho aplacarão os ódios e as ambições da militância enragée. O segundo enxergará o capitalismo por meio de uma grade de fantasias projetivas macabras, e acabará acusando a classe burguesa de ser ao mesmo tempo uma maçonaria racionalmente organizada para saquear o mundo e um aglomerado caótico de egoísmos incapazes de organizar-se.”

“Não espanta que toda tentativa de fusão entre capitalismo e socialismo resulte numa contradição ainda mais funda: quando os socialistas desistem da estatização integral dos meios de produção e os capitalistas aceitam o princípio do controle estatal, o resultado, hoje em dia, chama-se “terceira via”. Mas é, sem tirar nem pôr, economia fascista. De um lado, burgueses cada vez mais ricos, mas — como dizia Hitler — “de joelhos ante o Estado”. De outro, um povo cada vez mais garantido em matéria de alimentação, saúde, habitação etc., mas rigidamente escravizado ao controle estatal da vida privada.” p.131

Militância

“Tudo o que sobe, converge”, dizia Teilhard de Chardin. O estudo das religiões comparadas mostra a profunda unidade e coerência das grandes tradições no que diz respeito às virtudes essenciais. Por isto os profetas judeus são modelos de perfeição para os cristãos, os sábios hindus para os muçulmanos, e assim por diante. Já na esfera revolucionária, quanto mais um homem encarne a sua própria ideologia com perfeição, como Lenin e Stalin, Hitler e Mussolini, tanto mais ele se torna odioso e abominável aos seguidores de outros partidos. No máximo pode haver entre eles a mútua admiração invejosa de quem desejaria apropriar-se dos talentos do inimigo para mais facilmente poder destruí-lo. Não há virtude fora da fidelidade partidária.” p.136

“Victor Frankl descrevia o fanático por dois traços essenciais: a absorção da individualidade na ideologia coletiva e o desprezo pela individualidade alheia. “Individualidade” é a combinação singular de fatores que faz de cada ser humano um exemplar único e insubstituível. Há individualidades mais e menos diferenciadas. Quanto mais diferenciadas, menos podem ser reduzidas a tipicidades gerais e mais requerem a intuição compreensiva da sua fórmula pessoal. Isto se observa, mais nitidamente, na obra dos grandes artistas e filósofos, para não falar dos santos e profetas. É só de maneira parcial e deficiente que a personalidade criadora se enquadra em categorias gerais como “estilo de época”, “ideologia de classe” etc., que os cientistas sociais inventaram para falar de médias humanas indistintas, mas que o estudioso medíocre insiste em aplicar como camisas de força a tudo o que vá além da média.” p.137

“O fundo da degradação se atinge quando algumas “causas” são tão valorizadas que parecem infundir virtudes, automaticamente, em qualquer vagabundo, farsante ou bandido que consinta em representá-las.” p.141

“comentário de Bertolt Brecht: “Se eram inocentes, mais ainda mereciam ser condenados.” Brecht, aliás, foi aquele mesmo que resumiu com cinismo exemplar a essência da moral socialista: “Mentir em favor da verdade.” Experimente fazer isso e, é claro, você nunca mais vai parar de mentir. Algumas regras usuais do leninismo ilustram esse cinismo na prática diária: “Fomentar a corrupção e denunciá-la” e “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é” resumem às mil maravilhas a história do nosso PT, que cresceu pelo discurso de acusação moralista ao mesmo tempo que montava uma máquina de corrupção de dimensões faraônicas, perto da qual os velhos políticos ladrões começam a parecer meninos de escola culpados de roubar chicletes.

Era inevitável que, com o tempo, a forma mentis autonegativa do movimento esquerdista se cristalizasse numa fórmula estratégica simples, ingênua até, que por sua simploriedade mesma fosse de aplicação fácil e lucrativa, reprodutível em escala mundial por simples automatismo. Essa estratégia, cujo nome é hoje proclamado abertamente pelo sr. Hugo Chávez, é a “guerra assimétrica”.

Ela consiste, como explica Jacques Baud em La Guerre Asymétrique ou la Défaite du Vainqueur, ** em transformar as derrotas militares em vitórias políticas por meio de um ardil psicológico: outorgar a um dos lados, sob pretextos edificantes, o direito incondicional a todos os crimes, a todas as brutalidades, a todas as baixezas, e desarmar o outro por meio de cobranças morais paralisantes.” p.146

“E eu não sou covarde o bastante para me abster de dizer as coisas como as vejo, só por medo de uma rotulação pejorativa cuja falsidade já se revela na própria semântica do termo.” p.149

“Essa ausência de unidade é um fato empiricamente comprovável: civilizações inteiras nasceram, cresceram e morreram sem ter qualquer contato entre si, deixando vestígios que só vieram a ser desenterrados depois de milênios, saltando sobre muitas civilizações e culturas intermediárias. Ademais, a continuidade histórica não acompanha automaticamente a sucessão biológica das gerações. Depende da transmissão cultural, que é tênue em si mesma e frequentementen interrompida pelas guerras, pelas invasões, pelas catástrofes naturais e pelo simples esquecimento. O fio da história puramente humana não é contínuo: é escandido pela morte. Daí que, até hoje, todas as tentativas de “filosofia da história”, ambicionando reunir numa visão unificada e num sentido de totalidade o conjunto da experiência humana na Terra, tenham falhado miseravelmente. Chega a ser tragicômico que o reconhecimento desse fracasso, na segunda metade do século XX, tenha provocado tanto estupor e desespero. Agostinho, no século V, já havia demonstrado que toda visão totalizante da história material está condenada de antemão, no mínimo porque a história ainda não acabou e ninguém, de dentro dela, pode enxergá-la como um todo ou fechá-la num esquema lógico acabado. Cada novo “fim da história”, anunciado orgulhosamente pelos filósofos, é só mais um capítulo da história que prossegue e o desmente. De tudo o que estudei a respeito, a conclusão é inevitável: Agostinho tinha uma visão muito mais realista do processo histórico do que Vico, Hegel, Karl Marx, Comte e tutti quanti. Se descontarmos algumas obras mais recentes que beberam abundantemente em Agostinho (por exemplo, as de Christopher Dawson e Eric Voegelin), A Cidade de Deus ainda é o melhor livro de filosofia da história.” p.152

“Hoje em dia, bilhões de pessoas no mundo, independentemente de suas crenças e ideologias, já não podem conceber o bem senão sob a forma de uma sociedade futura, o pecado senão como oposição ao advento dessa sociedade, a eternidade senão como algum tipo de “justiça social” (as concepções variam) a ser alcançada no instante perpétuo do século seguinte, do milênio seguinte ou sabe-se lá quando. Como, porém, os instantes passam e o futuro jamais chega, porque continua futuro por definição, ninguém pode olhar para trás e confessar os pecados e crimes hediondos que cometeu para alcançá-lo. O culto invisível do instante perpétuo não apenas absolve por decreto tácito as matanças, os genocídios, o horror e a desumanidade dos regimes revolucionários, mas dá a todos os ativistas do mundo a licença para continuar oprimindo e matando indefinidamente, sempre em nome das lindezas hipotéticas de um futuro impossível.” p.155

Revolução

“Só se pode falar legitimamente de “revolução” quando uma proposta de mutação integral da sociedade vem acompanhada da exigência da concentração do poder nas mãos de um grupo dirigente como meio de realizar essa mutação. Nesse sentido, jamais houve revoluções no mundo anglo-saxônico, exceto a de Cromwell, que fracassou, e a Reforma Anglicana, um caso muito particular que não cabe comentar aqui. Na Inglaterra, tanto a revolta dos nobres contra o rei, em 1215, quanto a Revolução Gloriosa, de 1688, buscaram antes a limitação do poder central do que a sua concentração. O mesmo aconteceu na América em 1786. E em nenhum desses três casos o grupo revolucionário tentou mudar a estrutura da sociedade ou os costumes estabelecidos, antes forçando o governo a conformar-se às tradições populares e ao direito consuetudinário. Que pode haver de comum entre esses processos, mais restauradores e corretivos do que revolucionários, e os casos da França e da Rússia, onde um grupo de iluminados, imbuídos do projeto de uma sociedade totalmente inédita em radical oposição com a anterior, toma o poder firmemente resolvido a transformar não somente o sistema de governo, mas a moral e a cultura, os usos e costumes, a mentalidade da população e até a natureza humana em geral?” p.159

“Todos os equívocos em torno da ideia de “revolução” vêm do prestígio associado a essa palavra como sinônimo de renovação e progresso, mas esse prestígio lhe advém precisamente do sucesso alcançado pelas “revoluções” inglesa e americana que, no sentido estrito e técnico com que emprego essa palavra, não foram revoluções de maneira alguma. Essa mesma ilusão semântica impede o observador ingênuo — e incluo nisso boa parte da classe acadêmica especializada — de enxergar a revolução onde ela acontece sob a camuflagem de transmutações lentas e aparentemente pacíficas, como, por exemplo, a implantação do governo mundial que hoje se desenrola ante os olhos cegos das massas atônitas.” p.160

“Outra ilusão perigosa é a de crer que o advento da administração planetária é uma fatalidade histórica inevitável. A facilidade com que a pequena Honduras quebrou as pernas do gigante mundialista mostra que, ao menos por enquanto, o poder desse monstrengo se constitui apenas de um blefe publicitário monumental. É da natureza de todo blefe extrair sua substância vital da crença fictícia que consegue inocular em suas vítimas. Com grande frequência vejo liberais e conservadores repetindo os slogans mais estúpidos do globalismo, como por exemplo o de que certos problemas — narcotráfico, pedofilia etc. — não podem ser enfrentados em escala local, requerendo antes a intervenção de uma autoridade global. O contrassenso dessa afirmativa é tão patente que só um estado geral de sonsice hipnótica pode explicar que desfrute de alguma credibilidade. Aristóteles, Descartes e Leibniz ensinavam que, quando você tem um problema grande, a melhor maneira de resolvê-lo é subdividi-lo em unidades menores. A retórica globalista nada pode contra essa regra de método. Ampliar a escala de um problema jamais pode ser um bom meio de enfrentá-lo. A experiência de certas cidades americanas, que praticamente eliminaram a criminalidade de seus territórios usando apenas seus recursos locais, é a melhor prova de que, em vez de ampliar, é preciso diminuir a escala, subdividir o poder, e enfrentar os males na dimensão do contato direto e local em vez de deixar-se embriagar pela grandeza das ambições globais.” p.161

“No entanto, há pelo menos dez anos a ONU já declarou oficialmente sua intenção de consolidar se como administração planetária: “Os problemas da humanidade já não podem ser resolvidos pelos governos nacionais. O que é preciso é um governo mundial. A melhor maneira de realizá-lo é fortalecendo as Nações Unidas.”*” p.165

“Se todos os meios de produção são estatizados, não há mercado. Sem mercado, os produtos não têm preços. Sem preços, não se pode fazer cálculo de preços. Sem cálculo de preços, não há planejamento econômico. Sem planejamento, não há economia estatizada. “Comunismo” é apenas uma construção hipotética destituída de materialidade, um nome sem coisa nenhuma dentro, um formalismo universal abstrato que não escapa ileso à navalha de Occam. Não existiu nem existirá jamais uma economia comunista, apenas uma economia capitalista camuflada ou pervertida, boa somente para sustentar uma gangue de sanguessugas politicamente lindinhos.” p.167

“Com isso, os megacapitalistas mudam a base mesma do seu poder. Já não se apoiam na riqueza enquanto tal, mas no controle do processo político-social. Controle que, libertando-os da exposição aventurosa às flutuações do mercado, faz deles um poder dinástico durável, uma neoaristocracia capaz de atravessar incólume as variações da fortuna e a sucessão das gerações, abrigada no casteloforte do Estado e dos organismos internacionais. Já não são megacapitalistas: são metacapitalistas — a classe que transcendeu o capitalismo e o transformou no único socialismo que algum dia existiu ou existirá: o socialismo dos grão-senhores e dos engenheiros sociais a seu serviço.” p.170

“Várias décadas atrás, Ludwig von Bertalanffy (1901-1972), o criador da Teoria Geral dos Sistemas, ciente de que sua contribuição à ciência estava sendo usada para fins indevidos, já advertia: “O maior perigo dos sistemas totalitários modernos é talvez o fato de que estão terrivelmente avançados não somente no plano da técnica física ou biológica, mas também no da técnica psicológica. Os métodos de sugestionamento em massa, de liberação dos instintos da besta humana, de condicionamento ou controle do pensamento desenvolveram-se até alcançar uma eficácia formidável: o totalitarismo moderno é tão terrivelmente científico que, perto dele, o absolutismo dos períodos anteriores aparece como um mal menor, diletante e comparativamente inofensivo.” p.175

“Notem bem: moralidade não é uma lista de condutas louváveis e condenáveis, pronta para que o  cidadão a obedeça com o automatismo de um rato de Pavlov.

Moralidade é consciência, é discernimento pessoal, é busca de uma meta de perfeição que só aos poucos vai se esclarecendo e encontrando seus meios de realização entre as contradições e ambiguidades da vida.

São Tomás de Aquino já ensinava que o problema maior da existência moral não é conhecer a regra geral abstrata, mas fazer a ponte entre a unidade da regra e a variedade inesgotável das situações concretas, onde frequentemente somos espremidos entre deveres contraditórios ou nos vemos perdidos na distância entre intenções, meios e resultados.” p.177

“A grande literatura — a começar pela Bíblia — está repleta de exemplos de conflitos morais angustiantes, mostrando que o caminho do bem só é uma linha reta desde o ponto de vista divino, que tudo abrange num olhar simultâneo. Para nós, que vivemos no tempo e na história, tudo é hesitação, lusco-fusco, tentativa e erro. Só aos poucos, orientada pela graça divina, a luz da experiência vai dissipando a névoa das aparências.

Os códigos de conduta consagrados pela sociedade, transmitidos pela educação e pela cultura, não são jamais a solução do problema moral. São quadros de referência, muito amplos e genéricos, que dão apoio à consciência no seu esforço de unificação da conduta individual. Estão para a consciência de cada um como o desenho do edifício está para o trabalho do construtor: dizem por alto qual deve ser a forma final da obra, não como a construção deve ser empreendida em cada uma das suas etapas.

Quando os códigos são vários e contraditórios, é a própria forma final que se torna incongruente e irreconhecível, desgastando as almas em esforços vãos que as levarão a enroscar-se em problemas cada vez mais insolúveis e, em grande número de casos, a desistir de todo esforço moral sério. Muito do relativismo e da amoralidade reinantes não são propriamente crenças ou ideologias. São doenças da alma, adquiridas por esgotamento da inteligência moral.”p178

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Engenharia da complacência

Indignado ante o conformismo servil com que os americanos, outrora tão apegados às liberdades civis, vão aceitando as intrusões cada vez mais agressivas do governo nas suas vidas privadas, o economista Walter Williams finalmente se deu conta de que “o movimento antifumo explica parcialmente a atual complacência americana. Os zelotes do antitabagismo começaram com exigências ‘razoáveis’, como os avisos do Ministério da Saúde nos pacotes de cigarros. Depois exigiram áreas para não fumantes nos aviões. Encorajados pelo sucesso, exigiram a proibição total do fumo nos aviões, e depois nos aeroportos, nos restaurantes e nos locais de trabalho. Tudo em nome da saúde. Percebendo a resposta complacente dos fumantes, passaram a banir o fumo das praias, nas praças e nas calçadas das grandes cidades. Agora estão clamando por prêmios de seguro-saúde mais caros para os fumantes. Se tivessem apresentado a lista inteira de suas exigências logo no começo, não teriam conseguido nada. Usando a cruzada antifumo como modelo e vendo os americanos tão complacentes, os zelotes e candidatos a tiranos estão ampliando mais e mais a sua agenda”.***

Meus leitores e ouvintes são testemunhas de que há uma década e meia, ou mais, venho lhes explicando o óbvio: a campanha antitabagista jamais teve nada a ver com a saúde. Como era de se prever desde o início, até hoje não se verificou em parte alguma, com a patente diminuição do número de fumantes, nenhuma, rigorosamente nenhuma redução proporcional da incidência das doenças alegadamente “causadas pelo fumo”. Mas a patente ausência dos resultados prometidos, em vez de colocar em questão as premissas iniciais da campanha e moderar a retórica antifumo, como se esperaria de mentalidades soi-disant científicas, é respondida com novas cargas de exigências cada vez mais prepotentes, mais histéricas, mais invasivas. O antitabagismo, como o socialismo, vive de redobrar o blefe após cada novo desmentido das suas pretensões, transfigurando em sucesso publicitário e político o fracasso crônico das metas nominais alardeadas. Não lhe falta, para isso, uma incansável e vociferante militância espalhada pela Europa e pelas Américas, composta de uma bem subsidiada elite ativista e uma massa idiota de “verdadeiros crentes” cada vez mais fanatizados. Tão fanatizados que nem mesmo o uso repetidamente comprovado de meios de propaganda fraudulentos (como as fotos forjadas que o nosso Ministério da Saúde estampou nos maços de cigarros) os leva a duvidar, por um momento sequer, da idoneidade da campanha.

Por trás do que imaginam os crentes, o antitabagismo militante jamais teve por meta proteger a saúde de ninguém. Foi apenas um primeiro e bem-sucedido experimento de engenharia comportamental em escala planetária. Foi um balão de ensaio, preparatório à implantação de controles cada vez mais drásticos, cada vez mais intrusivos, destinados a reduzir a população de todo o Ocidente a uma massa amorfa incapaz de reagir a qualquer imposição, por mais arbitrária, lesiva e absurda, que venha da elite globalista autoconstituída em governo mundial.

A escolha do tema foi especialmente ardilosa, visando a seduzir conservadores, evangélicos e moralistas em geral, desarmando-os preventivamente ante quaisquer campanhas subsequentes baseadas no mesmo modelo e usando a própria força deles para sufocar na “espiral do silêncio”13 as poucas vozes discordantes. Uma vez que você cedeu tudo à pretensa autoridade científica dos organismos internacionais em matéria de “saúde”, fica difícil reerguer a cabeça quando essa autoridade, em seguida, estende seus domínios para as áreas da alimentação, da educação escolar, da moral sexual, da vida familiar e assim por diante. A facilidade estonteante com que a elite revolucionária instrumentalizou os seus próprios adversários mais ardorosos aparece condensada simbolicamente num detalhe cômico, ou tragicômico, que denota a fragilidade estrutural da reação antiestatista: o uso do tabaco é rigorosamente proibido nas sedes das organizações libertarians que defendem a liberação da maconha.

Só o que me espanta é que mesmo uma inteligência privilegiada como a de Walter Williams tenha levado tanto tempo para notar que o antitabagismo, usando do ardil das exigências progressivamente ampliadas (a famosa técnica da rã na panela), impôs muito mais do que sua meta nominal de restringir o consumo de cigarros: impôs, junto com ela, uma nova autoridade, um novo esquema de poder, um novo procedimento legislativo, um novo sistema de comandos que pode ser acionado a qualquer momento, com garantias quase infalíveis de obediência automática, para espalhar entre as massas as reações padronizadas que a elite global bem deseje. O triunfo da prepotência antitabagista não trouxe nem trará jamais os anunciados efeitos benéficos para a saúde da população, mas, depois dele, a humanidade Ocidental já não será mais a mesma. A complacência ante o Estado intrusivo parece ter-se arraigado de uma vez por todas no espírito das massas, pondo um fim à era da livre discussão e inaugurando a da passividade servil e do ódio à divergência.” p.179

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“O que tem feito das populações as vítimas inermes de mudanças que elas não desejam nem compreendem são três fatores: (a) a luta desigual entre uma elite intelectual e financeira altissimamente qualificada e a massa das pessoas que não recebem informação nem educação senão dessa mesma fonte; (b) a continuidade do projeto ao longo de várias gerações, transcendendo o horizonte de visão histórica de cada uma delas; (c) a prodigiosa flexibilidade das concepções fabiano-globalistas, cuja unidade reside inteiramente em objetivos de longuíssimo prazo e que, na variedade das situações imediatas, sabem se adaptar camaleonicamente às mais diversas exigências ideológicas, culturais e políticas, sem nenhum dogmatismo, sem nada daquela rigidez paralisante dos velhos partidos comunistas.

Para enxergar a unidade e a coerência por trás da diversidade alucinante das ações empreendidas por essa elite em todo o mundo ocidental, é preciso, além da massa de dados, alguns conceitos descritivos que o “cientista social” vulgar ignora por completo.

É preciso saber, por exemplo, que as “nações” e as “classes” não são nunca sujeitos agentes da história, mas apenas o excipiente com que os verdadeiros agentes injetam no corpo do tempo a substância ativa dos seus planos e decisões. Isto deveria ser óbvio, mas quem, numa intelectualidade acadêmica intoxicada de mitologia marxista (ou, em parte, de formalismo doutrinário liberalconservador), entende que só grupos e entidades capazes de durar inalteradamente ao longo das gerações podem ter a veleidade de conduzir o processo histórico?

Entre esses grupos destacam-se, é claro, as famílias dinásticas, de origem nobre ou não, que hoje constituem o núcleo vivo da elite globalista. Quando essas famílias têm a seu serviço a classe acadêmica mundial, os organismos reguladores internacionais, o grosso das empresas de mídia, a rede planetária de ONGs e, por meio destas, até a massa de militantes enragés que imaginam combater aqueles que na verdade os dirigem, quem pode resistir a tanto poder concentrado?

Decerto, só os dois esquemas globalistas concorrentes, o russo-chinês e o islâmico. Mas o “mundo melhor” que prometem não é nem um pouco mais humano, nem mais livre, do que aquele para o qual a elite fabiana está nos conduzindo à força.” p.182

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Da servidão hipnótica

“Boa parte do noticiário da semana passada descrevia os debates sobre a passeata gay em Roma como um confronto entre o movimento homossexual e a “extrema direita”. É típico exemplo de manipulação de vocabulário, que, adotada em escala mundial, tem mais força persuasiva do que qualquer argumentação ou campanha de publicidade explícita.” p.183

O deslocamento semântico da “extrema direita” cada vez mais para o centro visa a criar na opinião pública, por meio da sugestão irracional repetida, uma associação entre a imagem hedionda do nazifascismo e a de qualquer resistência, por mais mínima e discreta, que se oponha aos caprichos e exigências da militância enragée.

Extremismo é, por definição, o emprego de meios violentos para impor mudanças ainda mais violentas, como por exemplo leis raciais darwinistas ou a supressão forçada da religião. Quando a imprensa em massa, com o maior ar de inocência, passa a chamar de “extremista” qualquer cidadão pacífico que se apegue aos mandamentos de sua velha religião em vez de curvar-se com veloz solicitude às exigências repentinas de revolucionários histéricos, estamos diante de um caso óbvio de manipulação, destinada a forçar a rápida implantação de novos hábitos e valores por meio do engodo, eludindo os riscos do debate honesto e franco.

A maior parte da humanidade não tem defesa contra esse ardil. Espremidos entre a hipótese de ceder às novas palavras de ordem e a de tornar-se suspeitos de nazismo, quantos cidadãos terão o tempo e a prudência de tomar um recuo, de rejeitar a formulação do problema, de desmontar a armadilha lógica preparada para limitar sua visão dos fatos e sua capacidade de escolha? A maioria simplesmente aceitará a opção que lhe impõem. É verdade que cada concessão, isolada, significa pouco. Mas o efeito acumulado de milhares de pequenas concessões é o comprometimento integral da alma, a completa abdicação do juízo crítico. Não se pode nem chamar isso de servidão voluntária: é a servidão hipnótica.”p184

“A mente revolucionária” não é um fenômeno essencialmente político, mas espiritual e psicológico, se bem que seu campo de expressão mais visível e seu instrumento fundamental seja a ação política.

Para facilitar as coisas, uso as expressões “mente revolucionária” e “mentalidade revolucionária” para distinguir entre o fenômeno histórico concreto, com toda a variedade das suas manifestações, e a característica essencial e permanente que permite apreender a sua unidade ao longo do tempo.” p.186

“Mentalidade revolucionária” é o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da sociedade — senão a natureza humana em geral — por meio da ação política; e acredita que, como agente ou portador de um futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade presente ou passada, só tendo satisfações a prestar ao “tribunal da história”. Mas o tribunal da história é, por definição, a própria sociedade futura que esse indivíduo ou grupo diz representar no presente; e, como essa sociedade não pode testemunhar ou julgar senão através desse seu mesmo representante, é claro que este se torna assim não apenas o único juiz soberano de seus próprios atos, mas o juiz de toda a humanidade, passada, presente ou futura. Habilitado a acusar e condenar todas as leis, instituições, crenças, valores, costumes, ações e obras de todas as épocas sem poder ser por sua vez julgado por nenhuma delas, ele está tão acima da humanidade históricaque não é inexato chamá-lo de super-homem.” p.187

“O socialismo e o nazismo são revolucionários não porque propõem respectivamente o predomínio de uma classe ou de uma raça, mas porque fazem dessas bandeiras os princípios de uma remodelagem radical não só da ordem política, mas de toda a vida humana. Os malefícios que prenunciam se tornam universalmente ameaçadores porque não se apresentam como respostas locais a situações momentâneas, mas como mandamentos universais imbuídos da autoridade de refazer o mundo segundo o molde de uma hipotética perfeição futura. A Ku-Klux-Klan é tão racista quanto o nazismo, mas não é revolucionária porque não tem nenhum projeto de alcance mundial. Por essa razão seria ridículo compará-la, em periculosidade, ao movimento nazista. Ela é um problema policial puro e simples.” p.188

“Os termos “esquerda” e “direita” só têm sentido objetivo quando usados na sua acepção originária de revolução e contrarrevolução respectivamente. Todas as outras combinações e significados são arranjos ocasionais que não têm alcance descritivo, mas apenas uma utilidade oportunística, como símbolos da unidade de um movimento político e signos demonizadores de seus objetos de ódio.” p.190

“A essência da mentalidade contrarrevolucionária ou conservadora é a aversão a qualquer projeto de transformação abrangente, a recusa obstinada de intervir na sociedade como um todo, o respeito quase religioso pelos processos sociais regionais, espontâneos e de longo prazo, a negação de toda autoridade aos portavozes do futuro hipotético.

Nesse sentido, o autor destas linhas é estritamente conservador. Entre outros motivos, porque acredita que só o ponto de vista conservador pode fornecer uma visão realista do processo histórico, já que se baseia na experiência do passado e não em conjeturações de futuro. Toda historiografia revolucionária é fraudulenta na base, porque interpreta e distorce o passado segundo o molde de um futuro hipotético e, aliás, indefinível. Não é uma coincidência que os maiores historiadores de todas as épocas tenham sido sempre conservadores.” p.191

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Ainda a mentalidade revolucionária

“Em acréscimo ao meu artigo de 16 de agosto,15 eis aqui mais alguns traços que definem a “mentalidade revolucionária”:

1) O revolucionário não entende a injustiça e o mal como fatores inerentes à condição humana, que podem ser atenuados mas não eliminados, e sim como anomalias temporárias criadas por uma parcela da humanidade; parcela — os burgueses, os judeus, os cristãos etc. — que pode ser localizada e punida, extirpando-se destarte a raiz do mal.

2) A parcela culpada espalha o mal e o pecado por meio do exercício de um poder — econômico, político, militar e cultural. Logo, deve ser eliminada por meio de um poder superior, o poder revolucionário, criado deliberadamente para esse fim.

3) O poder maligno domina a sociedade como um todo, moldando-a à imagem e semelhança de seus interesses, fins e propósitos. A erradicação do mal deve tomar portanto a forma de uma reestruturação radical da ordem social inteira. Nada pode permanecer intocado. O poder revolucionário, como o Deus da Bíblia, “faz novas todas as coisas”. Não há limites para a abrangência e profundidade da ação revolucionária. Ela pode atingir mesmo as vítimas da situação anterior, acusando-as de ter-se habituado ao mal a ponto de se tornar suas cúmplices e por isso necessitar de castigo purificador tanto ou quase tanto quanto os antigos donos do poder.

4) Embora causado por uma parcela determinada da espécie humana, o mal espalha tão completamente por toda parte que se torna difícil conceber a vida sem ele. A nova sociedade de ordem, justiça e paz não pode portanto ser imaginada senão em linhas muito gerais, tão diferente ela será de tudo o que existiu até agora. O revolucionário não tem, pois, a obrigação — nem mesmo a possibilidade — de expor de maneira clara e detalhada o plano da nova sociedade, muito menos de provar sua viabilidade ou demonstrar, em termos da relação custo-benefício, as vantagens da transformação. Estas são dadas como premissas fundantes, de modo que a exigência de provas é impugnada automaticamente como subterfúgio para evitar a mudança e condenada ipso facto como elemento a ser eliminado. A revolução é fundamento de si própria e não pode ser questionada de fora.

5) Embora conhecida apenas como uma imagem muito geral e vaga, a sociedade futura coloca-se por isso acima de todos os julgamentos humanos e se torna ela própria a premissa fundante de todos os valores, de todos os juízos, de todos os raciocínios. Uma consequência imediata disso é que o futuro, não tendo como ser concebido racionalmente, só pode ser conhecido por meio de sua imagem na ação revolucionária presente, ação que, por isto mesmo, se subtrai por sua vez a qualquer julgamento humano, exceto o dos líderes revolucionários que a encarnam e personificam. Mas mesmo estes podem representá-la de maneira imperfeita, por serem filhos da velha sociedade e carregarem em si, ao menos parcialmente, os germes do antigo mal. A autoridade intelectual e profética dos líderes revolucionários é portanto provisória e só dura enquanto eles têm o poder material de assegurá-la. A condição de guia dos povos em direção ao futuro beatífico é, pois, incerta e revogável, conforme as irregularidades do percurso revolucionário. Os erros e crimes do líder caído, não podendo ser imputados à sociedade futura, nem ao processo revolucionário enquanto tal, nem ao movimento como um todo, só podem ser explicados portanto como um efeito residual do passado condenado: o revolucionário, por definição, só peca por não ser revolucionário o bastante.” pp.191-193

“A mentira do político comum é instrumental e pontual, a do revolucionário é estrutural, permanente e expansiva: não podendo dosar conscientemente a mentira e a verdade, ele tem de destruir no público mesmo a capacidade de fazer essa distinção. Daí a “revolução cultural”, o desmantelamento sistemático da inteligência popular.” p.197

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Direito do inferno

“O clamor obsessivo dos intelectuais, dos políticos e da mídia pela “supressão das desigualdades” e por uma “sociedade mais justa” pode não produzir, mesmo no longo prazo, nenhum desses dois resultados ou qualquer coisa que se pareça com eles. Mas, de imediato, produz ao menos um resultado infalível: faz as pessoas acreditarem que o predomínio da justiça e do bem depende da sociedade, do Estado, das leis, e não delas próprias. Quanto mais nos indignamos com a “sociedade injusta”, mais os nossos pecados pessoais parecem se dissolver na geral iniquidade e perder toda importância própria.

Que é uma mentira isolada, uma traição casual, uma deslealdade singular no quadro de universal safadeza que os jornais nos descrevem e a cólera dos demagogos verbera em palavras de fogo do alto dos palanques? É uma gota d’água no oceano, um grão de areia no deserto, uma partícula errante entre as galáxias, um infinitesimal ante o infinito. Ninguém vai ver. Pequemos, pois, com a consciência tranquila, e discursemos contra o mal do mundo.

Eliminemos do nosso coração todo sentimento de culpa, expelindo-o sobre as instituições, as leis, a injusta distribuição da renda, a alta taxa de juros e as hediondas privatizações.

Só há um problema: se todo mundo pensa assim, o mal se multiplica pelo número de palavras que o condenam. E, quanto mais maldoso cada um se torna, mais se inflama no coração de todos a indignação contra o mal genérico e sem autor do qual todos se sentem vítimas.

É preciso ser um cego, um idiota ou completo alienado da realidade para não notar que, na história dos últimos séculos, e sobretudo das últimas décadas, a expansão dos ideais sociais e da revolta contra a “sociedade injusta” vem junto com o rebaixamento do padrão moral dos indivíduos e com a consequente multiplicação do número de seus crimes. E é preciso ter uma mentalidade monstruosamente preconceituosa para recusar-se a ver o nexo causal que liga a demissão moral dos indivíduos a uma ética que os convida a aliviar-se de suas culpas lançando-as sobre as costas de um universal abstrato, “a sociedade”.

Se uma conexão tão óbvia escapa aos examinadores e estes se perdem na conjeturação evasiva de mil e uma outras causas possíveis, é por um motivo muito simples: a classe que promove a ética da irresponsabilidade pessoal e da inculpação de generalidades é a mesma incumbida de examinar a sociedade e dizer o que se passa. O inquérito está a cargo do criminoso. São os intelectuais que, primeiro, dissolvem o senso dos valores morais, jogam os filhos contra os pais, lisonjeiam a maldade individual e fazem de cada delinquente uma vítima habilitada a receber indenizações da sociedade má, e, depois, contemplando o panorama da delinquência geral resultante da assimilação dos novos valores, se recusam a assumir a responsabilidade pelos efeitos de suas palavras. Então têm de recorrer a subterfúgios cada vez mais artificiosos para conservar uma pose de autoridades isentas e cientificamente confiáveis.

Os cientistas sociais, os psicólogos, os jornalistas, os escritores, as “classes falantes”, como as chama Pierre Bourdieu, não são as testemunhas neutras e distantes que gostam de parecer em público (mesmo quando em família se confessam reformadores sociais ou revolucionários). São forças agentes datransformação social, as mais poderosas e eficazes, as únicas que têm uma ação direta sobre a imaginação, os sentimentos e a conduta das massas. O que quer que se degrade e apodreça na vida social pode ter centenas de outras causas concorrentes, predisponentes, associadas, remotas e indiretas; mas sua causa imediata e decisiva é a influência avassaladora e onipresente das “classes falantes”.

Debilitar a consciência moral dos indivíduos a pretexto de reformar a sociedade é tornar-se autor intelectual de todos os crimes — e depois, com redobrado cinismo, apagar todas as pistas. A culpa dos intelectuais ativistas na degradação da vida social, na desumanização das relações pessoais, na produção da criminalidade desenfreada é, no seu efeito conjunto, ilimitada e incalculável. É talvez por eles terem se sujado tanto que suas palavras de acusação contra a sociedade têm aquela ressonância profunda e atemorizante que ante a plateia ingênua lhes confere uma aparência de credibilidade. Ninguém fala com mais força e propriedade contra o pecador do que o demônio que o induziu ao pecado. O discurso dos intelectuais ativistas contra a sociedade vem direto do último círculo do inferno.” pp.198-199

Num tempo em que a França era o país mais cristão da Europa, Luís XIV tinha nada menos de 28 amantes, mas sua rotina de trabalho era mais pesada que a de qualquer executivo de multinacional, sem contar o fato, tão brilhantemente enfatizado por René Girard,******* de que a função real trazia consigo a obrigação de servir de bode expiatório para os males nacionais: quando a cabeça de Luís XVI rolou em pagamento das dívidas de seu pai e de seu avô, isso não foi uma inovação revolucionária, mas o simples cumprimento de um acordo tácito vigente no cerne mesmo do sistema monárquico. Já na Idade Média, os encargos da defesa territorial incumbiam inteiramente à classe aristocrática: ninguém podia obrigar um camponês ou comerciante a ir para a guerra, mas o nobre que fugisse aos seus deveres bélicos seria instantaneamente executado pelos seus pares. Noblesse oblige: a classe aristocrática era liberada de parte dos rigores morais cristãos na mesma medida em que pagava pela sua liberdade com a permanente oferta da própria vida em sacrifício pelo bem de todos.

Por toda parte, nas civilizações anteriores, um certo equilíbrio entre custo e benefício, entre direitos e deveres, entre prazeres e sacrifícios, era reconhecido como o princípio central da sanidade humana. A liberação de massas imensas de população para o desfrute de prazeres e requintes gratuitos é uma das situações psicológicas mais ameaçadoras já vividas pela humanidade desde o tempo das cavernas. Para cada indivíduo engolfado nesse processo, o efeito mais direto e incontornável da experiência é um sentimento de culpa tanto mais profundo e avassalador quanto menos conscientizado. Mas como poderia ele ser conscientizado, se na mesma medida em que se abrem as portas do prazer se fecham as da consciência religiosa?” p.201

“Desde logo, os atributos de justiça e injustiça só se aplicam aos entes reais capazes de agir. Um ser humano pode agir, uma empresa pode agir, um grupo político pode agir, mas “a sociedade”, como um todo, não pode. Toda ação subentende a unidade da intenção que a determina, e nenhuma sociedade chega a ter jamais uma unidade de intenções que justifique apontá-la como sujeito concreto de uma ação determinada. A sociedade, como tal, não é um agente: é o terreno, a moldura onde as ações de milhares de agentes, movidos por intenções diversas, produzem resultados que não correspondem integralmente nem mesmo às intenções deles, quanto mais às de um ente genérico chamado “a sociedade”!

“Sociedade justa” não é portanto um conceito descritivo. É uma figura de linguagem, uma metonímia. Por isso mesmo, tem necessariamente uma multiplicidade de sentidos que se superpõem e se mesclam numa confusão indeslindável, que basta para explicar por que os maiores crimes e injustiças do mundo foram praticados, precisamente, em nome da “sociedade justa”. Quando você adota como meta das suas ações uma figura de linguagem imaginando que é um conceito, isto é, quando você se propõe realizar uma coisa que não consegue nem mesmo definir, é fatal que acabe realizando algo de totalmente diverso do que imaginava. Quando isso acontece há choro e ranger de dentes, mas quase sempre o autor da encrenca se esquiva de arcar com suas culpas, apegando-se com tenacidade de caranguejo a uma alegação de boas intenções que, justamente por não corresponderem a nenhuma realidade identificável, são o melhor analgésico para as consciências pouco exigentes.” p.204

“Se a sociedade, em si, não pode ser justa ou injusta, toda sociedade abrange uma variedade de agentes conscientes que, estes sim, podem praticar ações justas ou injustas. Se algum significado substantivo pode ter a expressão “sociedade justa”, é o de uma sociedade onde os diversos agentes têm meios e disposição para ajudar uns aos outros a evitar atos injustos ou a repará-los quando não puderam ser evitados. “Sociedade justa”, no fim das contas, significa apenas uma sociedade onde a luta pela justiça é possível. “Meios” quer dizer: poder. Poder legal, decerto, mas não só isso: se você não tem meios econômicos, políticos e culturais de fazer valer a justiça, pouco adianta a lei estar do seu lado. Para haver aquele mínimo de justiça sem o qual a expressão “sociedade justa” seria apenas um belo adorno de crimes nefandos, é preciso que haja uma certa variedade e abundância de meios de poder espalhados pela população em vez de concentrados nas mãos de uma elite iluminada ou sortuda. Porém, se a população mesma não é capaz de criar esses meios e, em vez disso, confia num grupo revolucionário que promete tomá-los de seus atuais detentores e distribuílos democraticamente, aí é que o reino da injustiça se instala de uma vez por todas. Para distribuir poderes, é preciso primeiro possuí-los: o futuro distribuidor de poderes tem de tornar-se, antes, o detentor monopolístico de todo o poder. E mesmo que depois venha a tentar cumprir sua promessa, a mera condição de distribuidor de poderes continuará fazendo dele, cada vez mais, o senhor absoluto do poder supremo.” p.205

“Já quando a esquerda revolucionária sobe ao poder por via eleitoral numa nação mais ou menos democrática e desenvolvida, ela encontra um proletariado numeroso e às vezes até organizado. Mas é um proletariado que já não serve como classe revolucionária, porque a evolução do capitalismo, em vez de empobrecê-lo e marginalizá-lo como previa Marx, elevou seu padrão de vida formidavelmente e o integrou na sociedade como uma nova classe média, indiferente ou hostil à proposta de revoluções. Para não ficar socialmente isolados e politicamente ineficazes, os revolucionários têm de encontrar algum outro grupo social cujo conflito de interesses com o resto da sociedade possa ser explorado. Mas não existe nenhum que tenha com a burguesia um antagonismo econômico tão direto e claro, um potencial revolucionário tão patente quanto aquele que Karl Marx imaginou enxergar no proletariado. Não havendo nenhuma “classe revolucionária” pura e pronta, o remédio é tentar formar uma juntando grupos heterogêneos, movidos por insatisfações diversas.

Daí por diante, quaisquer motivos de queixa, por mais subjetivos, doidos ou conflitantes entre si, passarão a ser aproveitados como fermentos do espírito revolucionário. O preço é a dissolução completa da unidade teórica do movimento, obrigado a acolher em seu seio os interesses mais variados e mutuamente incompatíveis. Narcotraficantes sedentos de riqueza e poder, ladrões, assassinos e estelionatários revoltados contra o sistema penal, milionários ávidos de um prestígio político (ou até intelectual) à altura da sua conta bancária, professores medíocres ansiosos para tornar-se guias morais da multidão, donas de casa pequeno-burguesas insatisfeitas com a rotina doméstica, estudantes e pequenos intelectuais indignados com a sociedade que não recompensa os seus méritos imaginários, imigrantes recém-chegados que exigem seu quinhão de uma riqueza que não ajudaram a construir, pessoas inconformadas com o sexo em que nasceram — todos agora marcham lado a lado com lavradores expulsos de suas terras, pais de família desempregados e minorias raciais discriminadas, misturando, numa pasta confusa e explosiva, os danos reais e supostos, objetivos e subjetivos, que todos acreditam ter sofrido, e lançando as culpas num alvo tão onipresente quanto impalpável: o “sistema” ou “a sociedade injusta”.

Sendo obviamente impossível unificar todos esses interesses numa construção ideológica coerente e elegante como o marxismo clássico, a solução é apelar a algo como a “teoria crítica” da Escola de Frankfurt, que atribui ao intelectual revolucionário a missão única de tudo criticar, denunciar, corroer e destruir, concentrando-se no “trabalho do negativo”, como o chamava Hegel, sem nunca se preocupar com o que vai ser posto no lugar dos males presentes. O sr. Lula nunca estudou a teoria crítica, mas fez eco ao falatório dos intelectuais ao seu redor quando, após vários anos na presidência e duas décadas como líder absoluto do Foro de São Paulo, confessou: “Ainda não sabemos qual o tipo de socialismo que queremos.” Não sabemos nem precisamos saber: só o que interessa é seguir em frente — forward, como no lema de campanha de Barack Hussein Obama —, acusando, inculpando e gerando cada vez mais confusão, que, em seguida, será debitada, invariavelmente, na conta da “sociedade injusta”.

Se na esfera intelectual essa atitude chegou a produzir até a negação radical da lógica e da objetividade da linguagem e a condenar como autoritária a simples exigência de veracidade, como não poderia suscitar, no campo da moral social, o florescimento sem precedentes da amoralidade cínica e da criminalidade galopante?” pp.207-208

“A mais alta função da linguagem — a transposição da realidade em pensamento abstrato e o retorno deste à realidade, como instrumento de iluminação da experiência” p.220

“Num primeiro momento, a única vítima é a alta cultura, que desaparece sob a glorificação do pior e do mais baixo. Logo em seguida, o sistema educacional inteiro é infectado: substituída a exigência de qualidade pela da “correção política”, o clamor dos grupos de pressão torna-se a única fonte da autoridade pedagógica, impondo novos padrões de conduta em vez das regras da gramática, da lógica e da aritmética, premiando o sex appeal em vez das boas notas e, nos casos mais escandalosos, incentivando abertamente atos criminosos sob a desculpa de que são próprios da juventude ou justas expressões de protesto contra o establishment, como se os propugnadores dessa ideia não fossem eles próprios, agora, o establishment.” p.221

“As ideias revolucionárias não se espalham pelo povo antes de ter ganho a adesão ou pelo menos a cumplicidade da “classe dominante” p.223

“Nas democracias, qualquer político vulgar flagrado em delito menor perde a pose, entra em crise depressiva e faz deplorável figura ante o olhar da multidão. É que não se imunizou previamente, por imersão nas águas lustrais da autobeatificação ideológica, contra o sentimento de culpa. Acossado pelas denúncias, ouve brotar desde dentro o clamor da sua própria consciência moral que, longamente reprimida, retorna das sombras para condená-lo, justamente no momento em que ele mais precisaria reunir suas forças para defender-se dos adversários externos. Então vacila e cai. Foi assim que caiu Nixon. Foi assim que caiu Collor.

Já o revolucionário, o militante, o malfeitor ideológico, quando exposto às provas inumeráveis de seus crimes sangrentos e inumanos, se sente revigorado, fortalecido, enaltecido. Pois esses crimes, para ele, não são crimes: são sinais da bondade futura. Só assim se explica que homens que, por onde quer que tenham subido ao poder, só espalharam morte, miséria e sofrimentos incomparáveis, como fizeram no leste europeu, na China, no Vietnã, na Coreia do Norte, no Camboja e em Cuba, ainda se sintam com autoridade bastante para verberar os pecados das democracias capitalistas, como se estas não tivessem provado mil e uma vezes sua capacidade de corrigir-se a si mesmas e se encontrassem urgentemente necessitadas dos conselhos morais de revolucionários, narcoguerrilheiros e genocidas.” p.226

“Hoje em dia, em círculos letrados, já ninguém pode falar contra o consumo de drogas, contra a libertinagem, contra o aborto em massa ou contra certas formas de banditismo sem ver-se cercado de olhares de reprovação, como se tivesse dito algo de indecente.” p.227

“A investigação é má em absoluto, porque é coisa “da direita”” p.228

“O que distingue o pensamento dito “moderno”, do século XVIII em diante, e o diferencia radicalmente de todos os anteriores, é sua capacidade de gerar teorias que vêm prontinhas para ser massificadas, e que extraem daí, precisamente daí, todo o prestígio “intelectual” que possam vir a desfrutar. É como se saltassem por cima da etapa de inspiração solitária e já se enunciassem, desde o berço, como apelo às massas. Isso começou a acontecer desde o momento em que os homens de ideias perderam a fé no conhecimento da verdade e passaram a buscar, em vez dela, o afinamento com o “espírito da época”. Quantos filósofos e escritores, hoje em dia, não são abertamente louvados, não porque tenham descoberto alguma verdade, algum valor essencial, mas apenas e sobretudo porque expressaram, com seus erros e mentiras, as aspirações mais loucas e abjetas do “seu tempo”? Se não fosse por isso, tipos como Maquiavel, Diderot, Marx, Freud ou até mesmo Darwin não teriam hoje em dia um só admirador devoto. Seriam lidos, se tanto, como documentos históricos de um passado desprezível.” p.234

“Mas a teoria mais capaz de explorar em proveito próprio tudo o que a desminta é, com toda a certeza, o marxismo. Tudo o que diz já vem, na fonte, em duas versões: uma que diz sim, a outra que diz não. Qualquer das duas que saia vencedora aumentará formidavelmente o crédito da teoria marxista.

Como Marx se esquiva de esclarecer qual o coeficiente de influência que as causas econômicas têm na produção das mutações históricas em comparação com outras causas, você pode optar por um determinismo econômico integral ou pela completa inocuidade das causas econômicas e continuar se declarando, nos dois casos, um puro marxista. Ernesto Laclau chega a declarar que a mera propaganda cria a classe oprimida incumbida de legitimá-la ex post facto, e ninguém deixa de considerá-lo, por isso, um luminar do pensamento marxista.” p.235

“A própria ideia marxista da práxis — a mistura inextricável de teoria e prática — parece criada sob medida para tirar proveito das situações mais opostas: o que desmente o marxismo em teoria pode favorecer o movimento comunista na prática (é o caso das ideias de Laclau); as derrotas do comunismo na política prática podem sempre ser alegadas como efeitos de “desvios” e, portanto, como confirmações da teoria marxista (Trótski falando de Stalin).

A duplicidade de línguas no marxismo aparece não só nas grandes linhas da teoria e da estratégia, mas nas atitudes dos intelectuais marxistas ante qualquer acontecimento da vida cultural ou política. Tudo aí tem duas caras, cada uma exibida ou encoberta, em rodízio, conforme as conveniências do momento. Em 1967, quando a União dos Escritores da URSS proclamava Soljenítsin um tipo execrável e perigosíssimo, o filósofo comunista Georg Lukács jurava que o autor de Um dia na vida de Ivan Denissovitch tinha uma visão ortodoxamente marxista das coisas. O movimento comunista ficava assim preparado para as duas eventualidades: se o romancista viesse a ser ignorado no Ocidente, já estava garantido o seu lugar na lata de lixo da história; se fizesse sucesso, seria um sucesso do marxismo. Alguns exemplos próximos de nós ilustram o jogo com ainda mais clareza. Lula e o comandante das Farc, Raúl Rey es, podem presidir juntos30 as assembleias do Foro de São Paulo e em seguida alegar que nunca fizeram nada em parceria.31 As Farc podem publicar em sociedade com o PT a mais importante revista de discussão marxista do continente (America Libre) e ao mesmo tempo ser proclamadas, na mídia, como umas malditas traidoras que abandonaram o marxismo para entregar-se à pura cobiça de dinheiro. Se as Farc vencem, o Foro de São Paulo vence junto. Se perdem, ele sai limpo.” p.236

“Pelas mesmas razões, é inútil tentar combatê-los com acusações de corrupção banal, idênticas àquelas com que eles destroem facilmente as reputações de seus adversários. Primeiro, porque a parcela ideologicamente intoxicada do eleitorado, que constitui o contingente dos seus votantes fixos, não se escandaliza com atos desonestos cometidos por seus líderes, que lhe parecem vir em proveito da revolução. Segundo, porque a organização empenhada na luta por um objetivo geral que é mau, desonesto e pérfido em essência há de tratar sempre de ser a mais honesta possível nos detalhes instrumentais da política diária, não só para evitar problemas de percurso mas também para poder prevalecer-se de uma aparência enganosa de superioridade moral: nada mais rígido que o moralismo interno das máfias e dos partidos revolucionários. Não, a perfídia esquerdista não será jamais vencida por meio de tímidas mordidas nas beiradas. É preciso feri-la no coração, e esse coração chama-se: estratégia. Ou a desmascaramos, ou nos conformamos em vir a ser governados por um Pol-Pot, um Fidel Castro, um Ceaucescu.” p.239

Intelligentzia

“O nome dessa incapacidade é analfabetismo funcional. O problema das classes falantes no Brasil é que, excetuando mensagens corriqueiras, não compreendem o que leem, portanto muito menos compreendem o mundo real, seja na escala macroscópica dos acontecimentos mundiais, seja naquela mais próxima e modesta do seu horizonte de experiência direta. Pois o sentido de um texto, que já vem hierarquizado em categorias — pré-mastigado, por assim dizer —, é infinitamente mais fácil de apreender do que o nexo entre acontecimentos reais, onde a inteligência do observador tem de fazer sozinha todo o serviço, desde as analogias primitivas até as últimas precisões lógicas. O sujeito que é burro diante de um escrito é necessariamente mais burro diante da vida, exceto, é claro, no círculo limitado da sua experiência repetitiva, onde a eficácia das soluções herdadas lhe dá uma ilusão de inteligência.” p.249

“O controle da mídia por uma classe ideologicamente homogênea leva inevitavelmente a opinião popular a viver num mundo falso e a rejeitar como loucura qualquer informação que não combine com o estreito padrão de verossimilhança aprovado pelos detentores do microfone.

Quem são esses detentores? Os jornalistas de esquerda continuam se fazendo de coitadinhos oprimidos pelas empresas jornalísticas. Mas o fato é que hoje nenhuma empresa jornalística, do Brasil, dos EUA ou da Europa, se aventura a tentar controlar o esquerdismo desvairado que impera nas redações. A “ocupação de espaços” pela militância esquerdista cresceu junto com o poder da própria classe jornalística, e hoje ambas, fundidas numa unidade indissolúvel, exercem sobre a opinião pública uma tirania mental que só meia dúzia de inconformados ousa desafiar. Quando esse estado de coisas dura por tempo suficiente, mesmo aqueles que o criaram já não se lembram mais de que é um produto artificial: vivem no mundo ficcional que conceberam e adaptam para as dimensões dele todas as distinções entre realidade e fantasia, tornadas por sua vez pura fantasia.

Assim, pois, todos já se esqueceram de que o PT e o PSDB foram essencialmente criações de um mesmo grupo de intelectuais esquerdistas empenhados em aplicar no Brasil o que Lenin chamava “estratégia das tesouras”: a partilha do espaço político entre dois partidos de esquerda, um moderado, outro radical, de modo a eliminar toda resistência conservadora ao avanço da hegemonia esquerdista e a desviar para a esquerda o quadro inteiro das possibilidades em disputa. Tendo-se esquecido disso, interpretam o predomínio temporário da esquerda moderada, que eles próprios instauraram para fins de transição, como um efetivo império do “conservadorismo”, e então se sentem — sinceramente — oprimidos e jogados para escanteio no momento mesmo em que sua estratégia triunfa por completo.” p.260

“As épocas luminosas da história são aquelas em que um mesmo corpo de crenças é compartilhado pelo povo e pelos sábios, diferindo apenas no grau de compreensão refletida com que apreendem substancialmente as mesmas verdades.” p.261

“Um setor da experiência humana onde isso se mostra evidente são as ciências. Enquanto nos círculos de estudiosos high brow ninguém ignora que uma ciência cada vez menos inteligível e mais reduzida a produzir aplicações práticas em lugar de explicações teóricas representa, no fim das contas, um fracasso colossal da inteligência humana, na mídia e na educação popular essas mesmas aplicações são festejadas como a prova final da autoridade da ciência, do seu domínio sobre o mistério do mundo. Os cientistas vivem num inferno de dúvidas, perplexidades e temores; a massa, num paraíso de certezas inabaláveis, garantidas, segundo imagina, por esses mesmos cientistas.” p.262

“Seja em ciência política, seja no mero comentário jornalístico, a análise de um candidato a qualquer cargo eletivo, para ter o mínimo de confiabilidade, tem de abranger os seguintes aspectos e suas inter-relações:

1) Sua imagem publicitária, o “personagem” criado pela sua campanha, o qual pode coincidir em mais ou em menos com a sua personalidade real.

2) Seu programa de governo ou plano de ação, considerado na sua pura lógica interna.

3) A comparação entre esse plano e a situação externa objetiva que ele promete alterar ou corrigir.

4) As correntes de pensamento atuais ou pretéritas que, de maneira mais próxima ou mais remota, se refletem nesse plano.

5) Os grupos políticos, econômicos e culturais que apoiam o candidato de maneira ostensiva ou discreta.

6) A posição real do candidato ante esses grupos, seja como seu líder efetivo, como seu parceiro permanente ou temporário ou como seu agente e serviçal.

7) As alternativas reais ou possíveis contra as quais sua candidatura se opõe de maneira explícita ou velada.” p.270

“A premissa geral que fundamenta a tremenda autoridade das “classes falantes” — como as chamava Pierre Bourdieu — é que, pela lei das probabilidades, dificilmente algo de muito relevante pode escapar aos olhos de lince das parcelas supostamente mais esclarecidas da população. O problema é que estas acreditam na mesma premissa, e portanto só recebem informações do seu mesmo círculo, ignorando tudo o mais e imaginando que sabem tudo. Toda verdade relativa, quando se torna crença geral, acaba se revestindo de um sentimento de certeza absoluta que a transforma, quase que automaticamente, em erro mais que relativo.” p.275

“Quem só olha para onde todo mundo olha condena-se a ignorar poderosas forças históricas que estão subindo desde as profundezas neste mesmo momento e que arriscam, de uma hora para outra, irromper no palco destruindo brutalmente o sentido usual do espetáculo.” p.275

“Se por lei é proibido distinguir, na fala e no tratamento, entre uma mulher e um homem vestido de mulher, ou entre a voz feminina e a sua imitação masculina, se a simples associação da cor preta com o temor da noite é alusão racista, se o simples fato de designar uma espécie animal pelo seu exemplar masculino é um ato de opressão machista, todas as demais distinções espontâneas, naturais, autoevidentes, arraigadas no fundo do subconsciente humano pela natureza das coisas e por uma experiência arquimilenar, tornam-se automaticamente suspeitas e devem ser refreadas até prova suficiente de que não infringem nenhum código, não ofendem nenhum grupo de interesses, não magoam nenhuma suscetibilidade protegida pelo Estado.” p.283

“A ética não é uma ciência exata. Seu exercício depende de um esprit de finesse capaz de avaliar quantidades não mensuráveis. Existe em todo ser humano um conhecimento espontâneo dos princípios morais. Os princípios não são regras: são critérios formais que embasam as regras. As regras variam conforme os tempos e os lugares, mas subentendendo sempre os mesmos princípios. Qualquer selvagem sabe que aquilo que põe em risco a comunidade inteira é mais grave do que o que dana apenas uma parte dela. Qualquer analfabeto compreende que o que é mais básico e geral deve ser preservado com mais carinho do que aquilo que é periférico e particular.

As virtudes morais de um povo podem ser arranhadas aqui ou ali pelo descumprimento de regras específicas. Mas se a percepção dos princípios gerais é embotada, não é uma ou outra virtude que cai: é a possibilidade mesma de distinguir entre a virtude e o vício. É nesse preciso instante que o discurso de acusação moral se transforma na caça oportunista aos bodes expiatórios. Tão

confundido e atordoado pelos moralistas de ocasião tem sido o povo brasileiro, que já começa a aceitar como normais e louváveis a delação de parentes, o grampo generalizado e a nova escala de valores na qual surrupiar um dinheiro do Estado é mais criminoso do que matar, estuprar, vender tóxicos para crianças. Crenças como essas destroem, na base, qualquer ordem possível e alimentam ad infinitum a criminalidade.” p.284

“Cada um que abre a boca quer externar apenas algum sentimento subjetivo deslocado e extemporâneo, exibir bommocismo, angariar simpatias ou votos, como se se tratasse de uma rodada de apresentações pessoais num grupo de psicoterapia e não de uma conversa sensata sobre — digamos — alguma coisa. A coisa, o objeto, o fato, o tema, este, coitado, fica esquecido num canto, como se não existisse, e depois de algum tempo cessa mesmo de existir. A impressão que me sobra é a de que toda a população legente e escrevente está sofrendo de síndrome de déficit de atenção. Ninguém consegue fixar um objeto na mente por dez segundos, a imaginação sai voando para os lados e tecendo, embevecida, um rendilhado de frivolidades em torno do nada.

Se me perguntarem quais são os problemas essenciais do Brasil, responderei sem a menor dificuldade:

1) A matança de brasileiros, entre 40 e 50 mil por ano.

2) O consumo de drogas, que aumenta mais do que em qualquer país vizinho, e que alguns celerados pretendem aumentar ainda mais mediante a liberação do narcotráfico — o maior prêmio que as Farc poderiam receber por décadas de morticínio.

3) A absoluta ausência de educação num país cujos estudantes tiram sempre os últimos lugares nos testes internacionais, concorrendo com crianças de nações bem mais pobres; num país, mais ainda, onde se aceita como ministro da Educação um sujeito que não aprendeu a soletrar a palavra “cabeçalho” porque jamais teve cabeça, e onde se entende que a maior urgência do sistema escolar é ensinar às crianças as delícias da sodomia — sem dúvida uma solução prática para estudantes e professores, já que o exercício dessa atividade não requer conhecimentos de português, de matemática ou de coisa nenhuma exceto a localização aproximada das partes anatômicas envolvidas.

4) A falta cada vez maior de mão de obra qualificada de nível superior, que tem de ser trazida de fora porque das universidades não vem ninguém alfabetizado.

5) A dívida monstruosa acumulada por um governo criminoso que não se vexa de estrangular as gerações vindouras para conquistar os votos da presente, e que ainda é festejado, por isso, como o salvador da economia nacional.

6) A completa impossibilidade da concorrência democrática num quadro onde governo e oposição se aliaram, com o auxílio da grande mídia e a omissão cúmplice da classe rica, para censurar e proibir qualquer discurso político que defenda os ideais e valores majoritários da população, abomináveis ao paladar da elite.31

7) A debilitação alarmante da soberania nacional, já condenada à morte pela burocracia internacional em ascensão e pelo cerco continental do Foro de São Paulo (aquela entidade que até ontem nem mesmo existia, não é?).

8) A destruição completa da alta cultura, num estado catastrófico de favelização intelectual onde a função de respiradouro para a grande circulação de ideias no mundo, que caberia à classe acadêmica como um todo, é exercida praticamente por um único indivíduo, um último sobrevivente, que em retribuição leva pedradas e cuspidas por todo lado, especialmente dos plagiários e usurpadores que vivem de parasitar o seu trabalho.” pp.294-295

pp.300-302

“A Folha de S. Paulo******* perguntou a quatro dos seus mais típicos mentores45 por que é ainda importante ler Karl Marx. Nenhum deles deu a resposta certa: porque ninguém pode ignorar, sem grave risco, as ideias que mataram mais seres humanos do que todos os terremotos, furacões, epidemias e desastres aéreos do último século, mais duas guerras mundiais. Infringindo a regra elementar do próprio Karl Marx, de que a verdadeira substância de uma ideia é a sua prática e não a sua mera formulação conceitual, três deles mostraram enxergar o marxismo como pura teoria, separada da ação que exerceu no mundo, e incorreram assim no delito de “formalismo burguês”, o mais abominável para um cérebro marxista. Eu não tomaria aulas de marxismo com esses sujeitos nem se eles me pagassem.” p.312

“A um boboca que desconhece tudo aquilo que despreza, é forçoso que o horizonte de problemas pensado por Karl Marx pareça, em comparação com o nada, “vastíssimo”. Mas Karl Marx, em verdade, pensou num único problema: a luta de classes. Todos os outros conceitos da sua filosofia foram recebidos prontos, como os de dialética, de alienação ou de comunismo, ou são apenas afirmados sem nenhuma discussão crítica, como o próprio “materialismo dialético”, ou derivam da luta de classes por mero automatismo, como os de ideologia, superestrutura etc. Longe de ampliar o horizonte dos problemas filosóficos, o que Karl Marx fez foi restringi-lo com um dogmatismo acachapante, instituindo aquilo que Eric Voegelin caracterizou como “proibição de perguntar”. Já nem falo dos grandes problemas clássicos como o fundamento do ser, o sentido da existência, o bem e o mal etc. Nem o próprio conceito de “valor”, essencial na sua economia, ele discute. Postula-o no começo de O capital e segue adiante, sem notar que disse uma tremenda asneira.” p.313

“O governo militar, obsediado pelo empenho de reprimir as guerrilhas, não ligou a mínima para esses empreendimentos pacíficos, aparentemente inofensivos. Fez vista grossa e até os apoiou como derivativo e alternativa aceitável à oposição violenta. A ideia gramsciana foi tão bem-sucedida que, já em plena ditadura militar, a esquerda mandava nas redações, marginalizando os

direitistas mais salientes — Gustavo Corção, Lenildo Tabosa Pessoa — até excluí-los totalmente das colunas de jornais. O esquerdismo controlava tão eficazmente o sistema de ensino, que a própria disciplina de Educação Moral e Cívica, timidamente instituída por um governo que se abstinha de estender ao campo cultural a autoridade de que desfrutava na área policial-militar, acabou fornecendo uma tribuna para a disseminação das concepções “politicamente corretas” que vieram a forjar a mentalidade das gerações seguintes. No teatro, no cinema e na TV, a autoridade da esquerda pode ser medida pelo poder inconteste de veto ideológico exercido, na seleção das novelas da Globo — o mais vasto aparato de formação do imaginário popular —, pelo casal de militantes comunistas Dias Gomes e Janete Clair. Idêntica filtragem aconteceu no movimento editorial. Aos poucos, todos os autores não aprovados pelo Partido Comunista desapareceram das livrarias, das bibliotecas escolares, dos programas universitários, e isto ainda na vigência de um regime cuja fama de anticomunista intolerante era apregoada aos quatro ventos pelos próprios comunistas que se beneficiavam de sua sonsa tolerância e omissão ideológica.” p.327

“É óbvio que nunca expliquei o esquerdismo da mídia por qualquer conspiração, e sim pela hegemonia de um movimento de massas que, pelo seu próprio tamanho, é o inverso de uma conspiração. A dominação esquerdista é gritante, escancarada e cínica, a ponto de nem sequer precisar responder aos seus críticos. Conspiração é, ao contrário, uma trama secreta com objetivos pontuais, urdida entre o menor número possível de participantes para evitar vazamentos, e posta em execução pelos meios mais discretos à disposição dos interessados. Uma “teoria da conspiração” é o oposto exato da explicação fundada numa estratégia ampla e de longo prazo como a da “revolução cultural” gramsciana.

Mas não importa: no Brasil os termos correntes do vocabulário político nunca são usados para designar os objetos que lhes correspondem, mas para expressar os sentimentos toscos e confusos de adesão ou repulsa que se agitam na alma do falante. Por isso mesmo, as genuínas teorias da conspiração nunca são impugnadas como tais. São aceitas, ao contrário, como verdades de senso comum, com a condição única de que o suspeito da trama seja norte-americano. A população brasileira está maciçamente persuadida de que a CIA matou Kennedy, de que o Pentágono montou o golpe militar de 1964 no Brasil e o de 1973 no Chile, e de que um grupo de astutos capitalistas do petróleo planejou a invasão do Iraque. Se, porém, desafiando as coerências estereotipadas, você informa que Jimmy Carter usou o FMI para estrangular o governo Somoza e entregar o poder aos sandinistas, que Bill Clinton cedeu à China segredos nucleares vitais depois de eleito com verbas de propaganda chinesas, e que Al Gore é acionista de uma empresa que fez lavagem de dinheiro para o Comintern, você é carimbado imediatamente de “teórico da conspiração”, embora nem de longe esteja falando de conspirações e sim de dados oficiais, públicos e amplamente documentados.” p.337

“O segundo passo é admitir algo que deveria ser autoevidente desde o início: não é possível que todos os empreendimentos secretos sejam obra de entidades publicamente conhecidas. Pelo menos algumas organizações secretas devem ser realmente secretas, o que significa que nem mesmo se parecem com organizações. Por exemplo, os acordos discretos entre famílias arquipoderosas, os pactos informais entre megaempresários, o juramento de obediência de um fiel islâmico a um sheikh que ninguém de fora conhece, as seções mais interiores dos serviços de inteligência (ignorados até pela massa de seus servidores oficiais), as esferas mais altas e reservadas de algumas sociedades ocultistas, as conexões discretas entre organizações criminosas e entidades legalmente constituídas: nada disso tem sequer um nome, nada disso é propriamente uma “organização” ou “entidade”, mas um pouco de estudo basta para mostrar que aí estão as fontes invisíveis de muitas decisões históricas, frequentemente catastróficas, que proliferam em efeitos horrivelmente visíveis quando já ninguém tem condições de averiguar de onde vieram. Não tendo um nome pelo qual identificá-las, designamos essas redes de conexões, em geral, pelas denominações das entidades mais ostensivas que lhes servem de canal, de ocasião ou de camuflagem. Dizemos que tal ou qual medida foi imposta pelo Grupo Bilderberg, ou pelo Council on Foreign Relations, quando na verdade veio de meia dúzia de membros dessas entidades, unidos sem rótulo ou bandeira, frequentemente pelas costas dos demais. Dizemos que tal ou qual desgraça foi tramada pelo Foro de São Paulo, mas queremos nos referir a conversações discretas entre tipos como Fidel Castro, Raúl Rey es61 ou Lula, travadas longe das assembleias e grupos de trabalho daquele órgão.62 Esse uso dos nomes de entidades — praticamente o único à disposição de quem deseje falar desses assuntos — é indireto, metonímico. Não designa o sujeito real da ação, mas uma de suas aparências. Aí torna-se fácil, para o guardião do segredo, absolver o culpado mediante a simples artimanha verbal de inocentar as aparências. Praticamente tudo o que se escreve na mídia sobre o Foro de São Paulo, sobre os Bilderberg, sobre o CFR, sobre governo mundial e assuntos correlatos vem contaminado por esses equívocos propositais.” p.339

“Ocultistas devotos professam a crença de que “o segredo se protege a si mesmo”. Crença falsa. O que protege o segredo são os falsos segredos.” p.340

Educação

“Quando Cristo disse: “Na verdade amais o que deveríeis odiar, e odiais o que deveríeis amar”, ensinou da maneira mais explícita que os sentimentos não são guias confiáveis da conduta humana. Antes de podermos usá-los como indicadores do certo e do errado, temos de lhes ensinar o que é certo e errado. Os sentimentos só valem quando subordinados à razão e ao espírito.

Razão não é só pensamento lógico: reduzi-la a isso é uma idolatria dos meios acima dos fins, que termina num fetichismo macabro. Razão é o senso da unidade do real, que se traduz na busca da coesão entre experiência e memória, percepções e pensamentos, atos e palavras etc. A capacidade lógica é uma expressão parcial e limitada desse senso. Também são expressões dele o senso estético e o senso ético: o primeiro anseia pela unidade das formas sensíveis, o segundo pela unidade entre saber e agir. Tudo isso é razão.” p.355

“a “pomba da paz”, oferecida à adoração infantil nas escolas, foi um desenho encomendado a Pablo Picasso por Josef Stalin com o intuito de fazer com que o símbolo da Pax soviética” p.357

—— pp.358-359

Educação ao contrário

Diário do Comércio, 27 de janeiro de 2009

Clicando no Google a palavra “educação”, seguida da expressão “direito de todos”, encontrei 671 mil referências. Só de artigos acadêmicos a respeito, 5.120. “Educação inclusiva” dá 262 mil respostas. Experimente clicar agora “educar-se é dever de cada um”: nenhum resultado. “Educar-se é dever de todos”: nenhum resultado. “Educar-se é dever do cidadão”: nenhum resultado.

Isso basta para explicar por que os estudantes brasileiros tiram sempre os últimos lugares nos testes internacionais. A ideia de que educar-se seja um dever jamais parece ter ocorrido às mentes iluminadas que orientam (ou desorientam) a formação (ou deformação) das mentes das nossas crianças.

Eis também a razão pela qual, quando meus filhos me perguntavam por que tinham de ir para a escola, só conseguia lhes responder que, se não fizessem isso, eu iria para a cadeia; que, portanto, deveriam submeter-se àquele ritual absurdo por amor ao seu velho pai. Jamais consegui encontrar outra justificativa. Também lhes recomendei que só se esforçassem o bastante para tirar as notas mínimas, sem perder mais tempo com aquela bobagem. Se quisessem adquirir cultura, que estudassem em casa, sob a minha orientação. Tenho oito filhos. Nenhum deles é inculto. Mas o mais erudito de todos, não por coincidência, é aquele que frequentou escola por menos tempo.

A ideia de que a educação seja um direito é uma das mais esquisitas que já passaram pela mente humana. É só a repetição obsessiva que lhe dá alguma credibilidade. Que é um direito, afinal? É uma obrigação que alguém tem para com você. Amputado da obrigação que impõe a um terceiro, o direito não tem substância nenhuma. É como dizer que as crianças têm direito à alimentação sem que ninguém tenha a obrigação de alimentá-las. A palavra “direito” é apenas um modo eufemístico de designar a obrigação dos outros.

Os outros, no caso, são as pessoas e instituições nominalmente incumbidas de “dar” educação aos brasileiros: professores, pedagogos, ministros, intelectuais e uma multidão de burocratas. Quando essas criaturas dizem que você tem direito à educação, estão apenas enunciando uma obrigação que incumbe a elas próprias. Por que, então, fazem disso uma campanha publicitária? Por que publicam anúncios que logicamente só devem ser lidos por elas mesmas? Será que até para se convencer das suas próprias obrigações têm de gastar dinheiro do governo? Ou são tão preguiçosas que precisam incitar a população para que as pressione a cumprir seu dever? Cada tostão gasto em campanhas desse tipo é um absurdo e um crime.

Mais ainda, a experiência universal dos educadores genuínos prova que o sujeito ativo do processo educacional é o estudante, não o professor, o diretor da escola ou toda a burocracia estatal reunida. Ninguém pode “dar” educação a ninguém. Educação é uma conquista pessoal, e só se obtém quando o impulso para ela é sincero, vem do fundo da alma e não de uma obrigação imposta de fora. Ninguém se educa contra a sua própria vontade, no mínimo porque estudar requer concentração, e pressão de fora é o contrário da concentração. O máximo que um estudante pode receber de fora são os meios e a oportunidade de educar-se. Mas isso não servirá para nada se não estiver motivado a buscar conhecimento. Gritar no ouvido dele que a educação é um direito seu só o impele a cobrar tudo dos outros — do Estado, da sociedade — e nada de si mesmo.

Se há uma coisa óbvia na cultura brasileira, é o desprezo pelo conhecimento e a concomitante veneração pelos títulos e diplomas que dão acesso aos bons empregos. Isso é uma constante que vem do tempo do Império e já foi abundantemente documentada na nossa literatura. Nessas condições, campanhas publicitárias que enfatizem a educação como um direito a ser cobrado, e não como uma obrigação a ser cumprida pelo próprio destinatário da campanha, têm um efeito corruptor quase tão grave quanto o do tráfico de drogas. Incitam as pessoas a esperar que o governo lhes dê a ferramenta mágica para subir na vida sem que isto implique, da parte delas, nenhum amor aos estudos, e sim apenas o desejo do diploma.

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“Como já escrevi tempos atrás, o maior obstáculo à formação superior da inteligência não está em fatores de ordem econômica, social, racial ou familiar, mas de ordem moral. Está naquilo que os gregos chamavam apeirokalia:1 a falta de experiência das coisas mais belas. A alma que, desde tenra idade, não seja exposta à visão de exemplos concretos de beleza natural, artística, intelectual, espiritual e moral, torna-se incapaz de conceber qualquer realidade mais alta que o topo das suas percepções corriqueiras. Como o sapo do fundo do poço, se lhe perguntamos “Que é o céu?”, responde: “É um buraquinho no teto da minha casa.” p.376

Aborto

“Ora, o problema do aborto pertence, com toda a evidência, a esta última espécie. O questionamento do aborto existe porque a prática do aborto existe, e não ao contrário. Que alguém decida em favor do aborto é o pressuposto da existência do debate sobre o aborto. Mas o que é pressuposto de um debate não pode, ao mesmo tempo, ser a sua conclusão lógica. A opção pelo aborto, sendo prévia a toda discussão, é inacessível a argumentos. O abortista é abortista por decisão livre, que prescinde de razões. Essa liberdade afirma-se diretamente pelo ato que a realiza e, multiplicado por milhões, se torna liberdade genericamente reconhecida e consolidada num “direito”. Daí que o discurso em favor do aborto evite a problemática moral e se apegue ao terreno jurídico e político: não quer tanto afirmar um valor, mas estatuir um direito (que pode, em tese, coexistir com a condenação moral do ato).” p.383

“Mas o empate mesmo acaba por transfigurar toda a discussão: diante dele, passamos de uma disputa ético-metafísica, insolúvel nas presentes condições da cultura ocidental, a uma simples equação matemática cuja resolução deve, em princípio, ser idêntica e igualmente probante para todos os seres capazes de compreendê-la. Essa equação formula-se assim: se há 50% de probabilidades de que o feto seja humano e 50% de que não o seja, apostar nesta última hipótese é, literalmente, optar por um ato que tem 50% de probabilidades de ser um homicídio.

Com isso, a questão toda se esclarece mais do que poderia exigi-lo o mais refratário dos cérebros. Não havendo certeza absoluta da inumanidade do feto, extirpá-lo pressupõe uma decisão moral (ou imoral) tomada no escuro. Podemos preservar a vida dessa criatura e descobrir mais tarde que empenhamos em vão nossos altos sentimentos éticos em defesa do que não passava, no fim das contas, de mera coisa. Mas podemos também decidir extirpar a coisa, correndo o risco de descobrir, tarde demais, que era um ser humano. Entre a precaução e a aposta temerária, cabe escolher? Qual de nós, armado de um revólver, se acreditaria moralmente autorizado a dispará-lo, se soubesse que tem 50% de chances de acertar numa criatura inocente? Dito de outro modo: apostar na inumanidade do feto é jogar na cara ou coroa a sobrevivência ou morte de um possível ser humano.” p.384

“A opção pelo abortismo exige, como condição prévia, a incapacidade ou recusa de apreender essa noção. Para o abortista, a condição de “ser humano” não é uma qualidade inata definidora dos membros da espécie, mas uma convenção que os já nascidos podem, a seu talante, aplicar ou deixar de aplicar aos que ainda não nasceram. Quem decide se o feto em gestação pertence ou não à humanidade é um consenso social, não a natureza das coisas.

O grau de confusão mental necessário para acreditar nessa ideia não é pequeno. Tanto que raramente os abortistas alegam de maneira clara e explícita essa premissa fundante dos seus argumentos. Em geral mantêm-na oculta, entre névoas (até para si próprios), porque pressentem que enunciá-la em voz alta seria desmascará-la, no ato, como presunção antropológica sem qualquer fundamento possível e, aliás, de aplicação catastrófica: se a condição de ser humano é uma convenção social, nada impede que uma convenção posterior a revogue, negando a humanidade de retardados mentais, de aleijados, de homossexuais, de negros, de judeus, de ciganos ou de quem quer que, segundo os caprichos do momento, pareça inconveniente.” p.386

“Aristóteles aconselhava evitar o debate com adversários incapazes de reconhecer ou de obedecer as regras elementares da busca da verdade. Se algum abortista desejasse a verdade, teria de reconhecer que é incapaz de provar a inumanidade dos fetos e admitir que, no fundo, eles serem humanos ou não é coisa que não interfere, no mais mínimo que seja, na sua decisão de matá-los. Mas confessar isso seria exibir um crachá de sociopata. E sociopatas, por definição e fatalidade intrínseca, vivem de parecer que não o são.” p.387

Ciência

“Em suma, o conhecimento científico — e mais ainda aquilo que hoje se entende popularmente como tal — é uma subdivisão especializada da capacidade racional geral e tem nela o seu fundamento, não podendo julgá-la por seus próprios critérios. O que aqui se entende como “razão” não se resume também às capacidades usuais da linguagem coerente e do cálculo, pois ambas essas capacidades também não passam de especializações de uma capacidade mais básica. A razão é, em primeiro lugar, a capacidade de abrir-se imaginativamente ao campo inteiro da experiência real e virtual como uma totalidade e de contrastar essa totalidade com a dimensão de infinitude que a transcende imensuravelmente. O finito e o infinito são as primeiras categorias da razão, e não me refiro aos equivalentes matemáticos desses termos, que são apenas as traduções deles para um domínio especializado. Dessa primeira distinção surgem inúmeras outras, como inclusão e exclusão, limitado e ilimitado, permanência e mudança, substância e acidente e assim por diante. Sem essa imensa rede de distinções e inclusões que constitui a estrutura básica da razão, o método científico seria um nada. É ainda mais estúpido imaginar que, uma vez formado historicamente, o método científico se tornou independente da razão e pode prescindir dela ou julgá-la segundo seus próprios critérios. É a razão, e não o método científico, que confere sentido ao próprio discurso científico, o qual por sua vez não pode dar conta dela no mais mínimo que seja. A “ciência” não pode jamais ser a autoridade última em nenhum assunto exceto dentro dos limites que a razão lhe prescreva, limites estes que por sua vez continuam sujeitos à crítica racional a qualquer momento e em qualquer circunstância do processo científico.” p.394

Religião

—— pp.407-408

“O modo de alcançar esse objetivo é trabalhoso e caro, mas simples em essência: trata-se de atacar a honra do infeliz desde tantos lados, por tantos meios de comunicação diversos e com tamanha variedade de alegações contraditórias, com frequência propositadamente absurdas e farsescas, de tal modo que ele, sentindo a inviabilidade de um debate limpo, acabe preferindo recolher-se ao silêncio. Nesse momento ele se torna politicamente defunto. O mal venceu mais uma batalha.” p.417

“A única reação eficaz à espiral do silêncio é quebrá-la — e não se pode fazer isso sem quebrar, junto com ela, a imagem de respeitabilidade dos que a fabricaram. Mas como desmascarar uma falsa respeitabilidade respeitosamente? Como denunciar a malícia, a trapaça, a mentira, o crime, sem ultrapassar as fronteiras do mero “debate de ideias”? Quem comete crimes não são ideias: são pessoas. Nada favorece mais o império do mal do que o medo de partir para o “ataque pessoal” quando este é absolutamente necessário. Aristóteles ensinava que não se pode debater com quem não reconhece — ou não segue — as regras da busca da verdade. Os que querem manter um “diálogo elevado” com criminosos tornam-se maquiadores do crime. São esses os primeiros que, na impossibilidade de um debate honesto, e temendo cair no pecado do “ataque pessoal”, se recolhem ao que imaginam ser um silêncio honrado, entregando o terreno ao inimigo. A técnica da “espiral do silêncio” consiste em induzi-los a fazer precisamente isso.” p.418

“Homossexualismo é uma coisa, movimento gay é outra. O primeiro é um pecado da carne, o segundo é o acinte organizado, politicamente armado, feroz e sistemático, à dignidade da Igreja e do próprio Deus — algo que vai muito além até mesmo da propaganda ateística, já que esta se constitui de meras palavras e aquele de atos de poder. Atos de prepotência, calculados para humilhar, atemorizar e aviltar, preparando o caminho para a agressão física, a repressão policial e o morticínio. O cinismo máximo dessa gente é alardear choramingando a violência pública contra os gay s, estatisticamente irrisória, e alegá-la justamente contra a comunidade mais perseguida e mais ameaçada do universo, que já forneceu algumas centenas de milhões de vítimas aos rituais sangrentos dos construtores de “mundos melhores”. O indivíduo que se deixou corromper a ponto de entregar-se a esse exercício de mendacidade psicótica com a boa consciência de estar servindo a uma causa humanitária está longe de poder ser atingido, na sua alma, por exortações morais, apelos à “liberdade de religião”, queixas formuladas em linguagem de debate acadêmico pó de arroz ou mesmo argumentações racionais maravilhosamente fundamentadas. Só uma coisa pode inibi-lo: o temor da humilhação pública, que, nas almas dos farsantes e hipócritas, é sempre exacerbado e, às vezes, o seu único ponto sensível.” p.420

Linguagem

“Se há uma coisa que, quanto mais você perde, menos sente falta, é a inteligência. Uso a palavra não no sentido vulgar de habilidadezinhas mensuráveis, mas no de percepção da realidade. Quanto menos você percebe, menos percebe que não percebe. Quase que invariavelmente, a perda vem por isso acompanhada de um sentimento de plenitude, de segurança, quase de infalibilidade. É claro: quanto mais burro você fica, menos atina com as contradições e dificuldades, e tudo lhe parece explicável em meia dúzia de palavras.” p.431

“A linguagem dos chavões caracteriza-se por três traços inconfundíveis:

1) Aposta no efeito emocional imediato das palavras, contornando o exame dos objetos e experiências correspondentes.

2) Procura dar a impressão de que as palavras são um traslado direto da realidade, escamoteando a história de como seus significados presentes se formaram pelo uso repetido, expressão de preferências e escolhas humanas. Confundindo propositadamente palavras e coisas, o agente político dissimula sua própria ação e induz a plateia a crer que decide livremente com base numa visão direta da realidade.

3) Confere a autoridade de verdades absolutas a afirmações que, na melhor das hipóteses, têm uma validade relativa.” p.433

“Deveria ser evidente à primeira vista que os termos usados no debate político e cultural raramente denotam coisas, objetos do mundo exterior, mas sim um amálgama de conjeturas, expectativas e preferências humanas; que, portanto, nenhum deles tem qualquer significado além do feixe de contradições e dificuldades que encerra, através das quais, e só através das quais, chegam a designar algo do mundo real. Você pode saber o que é um gato simplesmente olhando para um gato, mas “democracia”, “liberdade”, “direitos humanos”, “igualdade”, “reacionário”, “preconceito”, “discriminação”, “extremismo” etc. são entidades que só existem na confrontação dialética de ideias, valores e atitudes. Quem quer que use essas palavras dando a impressão de que refletem realidades imediatas, improblemáticas, reconhecíveis à primeira vista, é um demagogo e charlatão. Aquele que assim escreve ou fala não quer despertar em você a consciência de como as coisas se passam, mas apenas uma reação emocional favorável à pessoa dele, ao partido dele, aos interesses dele. É um traficante de entorpecentes posando de intelectual e professor.” p.434

“Para ser representativo da cultura de um país e de um momento, o escritor tem de atender a três condições óbvias. Primeira: tem de ser ótimo, tem de expressar o melhor e o mais alto de que sua nação é capaz, tem de ter dado algo de valor ao mundo em nome do seu país. Segunda: tem de ser atual, isto é, atuante. Tem de estar up-to-date, seja pelas obras, seja pelos atos. Terceira: tem de ser influente, ser poderoso, ser muito lido e muito falado.” p.440

Discussão

“É assim que funciona, hoje, o cérebro de um típico “formador de opinião” brasileiro. A diligência na busca da verdade, o autoexame constante, a luta com a complexidade dos fatos e com a obscuridade da própria alma lhe são totalmente desconhecidos. O verdadeiro fundamento de suas opiniões é sua falta de autoconsciência. Sua utilidade social e a razão do seu sucesso residem no fato de que mantém em circulação o estoque de fórmulas convencionais, colocando-as à disposição de outros indivíduos intelectualmente passivos, que necessitam delas para revestir mal e mal suas próprias impressões subjetivas e adquirir com isso uma ilusão de que sabem do que estão falando. A mera assimilação imitativa do linguajar “culto” torna-se assim o substitutivo cabal da educação para o conhecimento. Pessoas assim formadas não dizem o que percebem nem julgam o que dizem: acreditam no que conseguem dizer, pelo simples fato de que não saberiam dizer outra coisa.” p.454

“O debate assim conduzido é, portanto, sempre e necessariamente uma confrontação de preconceitos, no sentido mais literal e etimológico do termo. Esse sentido contrasta de maneira chocante com o uso polêmico que no curso do próprio debate se faça desse termo como rótulo infamante. Carimbar as ideias do adversário como “preconceitos”, dando a entender que não passam de tomadas de posição irracionais e sem fundamento é, na maior parte dos casos, nada mais que um pretexto para não ter de examinar as razões que as fundamentam, muito menos a possibilidade de haverem nascido de boas intenções. Aquilo que aí se chama “debate” não é portanto nenhuma confrontação de ideias, mas uma mera disputa de impressões positivas e negativas, um jogo de cena.” p.458

“É também natural que, justamente por isso, os debatedores procurem abrigar-se sob a proteção da “ciência”, mas nenhuma acumulação de dados estatísticos, nenhuma carga de citações acadêmicas ou mesmo de alegações cientificamente válidas em si mesmas dará qualquer legitimidade científica a um argumento, se este não inclui a reprodução fiel e a discussão científica dos argumentos antagônicos. Ciência é, por definição, a confrontação de hipóteses: se, em vez de ser examinadas extensivamente, as opiniões adversas são escamoteadas, caricaturadas, deformadas ou expulsas in limine da discussão sob um pretexto qualquer, de pouco vale você adornar a sua própria com as mais belas razões científicas do mundo. Não se faz ciência acumulando opiniões convergentes, mas buscando laboriosamente a verdade entre visões divergentes.” p.459

“O brasileiro inclina-se a apreender antes “o que querem dele” do que o quid da coisa da qual se fala. Diga você o que disser, sobre não importa o quê, e ele ouvirá uma ordem, um pedido, um apelo, um estímulo, uma proibição. É natural que, ouvindo assim, também fale assim, isto é, que, numa situação que exige descrever fatos e seres, ele se atenha a expressar o que sente, sem notar sequer a diferença entre uma coisa e outra. Sua fala será então respondida na mesma clave, e assim por diante indefinidamente, numa espécie de solipsismo coletivo no qual as almas, quanto mais se abrem umas às outras, mais se fecham na sua ilusão subjetivista.

Daí a compulsiva necessidade de “tomar posição” antes e independentemente de conhecer as coisas em questão, bem como a impossibilidade de ouvir uma argumentação ou prova senão como expressão mais elaborada de uma “tomada de posição” subjetiva. No Brasil não se discutem ideias, teorias, visões da realidade: discutem-se “posições” — atitudes, preferências, gostos e antipatias. Se é verdade o que dizia Henry James, que “os senhores falam de coisas; os escravos, de pessoas”, então somos, indiscutivelmente, uma nação de escravos.” p.462

Libertação e Estudo

“Nessas circunstâncias — repito Oscar Wilde —, dizer a verdade é mais que um dever: é um prazer. Mais que um prazer, é uma autêntica exaltação da alma, que ao descer da ilusão aos fatos descobre, pela primeira vez, a dimensão da altura e da profundidade, a estatura real do espírito. É uma descida que é ascensão, se me entendem.” p.586

—— pp.588-590

“A inteligência, ao contrário do dinheiro ou da saúde, tem esta peculiaridade: quanto mais você a perde, menos dá pela falta dela. O homem inteligente, afeito a estudos pesados, logo acha que emburreceu quando, cansado, nervoso ou maldormido, sente dificuldade em compreender algo. Aquele que nunca entendeu grande coisa se acha perfeitamente normal quando entende menos ainda, pois esqueceu o pouco que entendia e já não tem como comparar. Uma das coisas que me deliciam, que me levam ao êxtase quando contemplo o Brasil de hoje, é o ar de seriedade com que as pessoas discutem e pretendem sanar os males econômicos, políticos e administrativos do Brasil, sem ligar a mínima para a destruição da cultura, como se a inteligência prática subsistisse incólume ao emburrecimento geral, como se inteligência fosse um adorno a ser acrescentado ao sucesso depois de resolvidos todos os problemas, ou como se a inépcia absoluta não fosse de maneira alguma um obstáculo à conquista da felicidade geral. A prova mais evidente da insensibilidade torpe é o sujeito já nem sentir saudade da consciência que teve um dia.” p.597

—— pp.598-599

“Que época mais adorável, esta, em que o sujeito não é cobrado por seus erros, mas por seus acertos! Se o normal é errar sempre, para que serviriam então os milhares de cientistas sociais, historiadores, jornalistas, economistas e doutores em filosofia que as universidades, sustentadas pelo trabalho suado de milhões de contribuintes que jamais as frequentaram, despejam anualmente no mercado da tagarelice nacional? Resposta: não servem para entender o mundo, mas para transformá-lo. Não podendo, porém, conhecê-lo, já que não acreditam em verdade objetiva, levam-no sempre num rumo diferente do que pretendiam, sentindo-se — por isso mesmo, raios! — inocentes dos resultados monstruosos que produzem e sempre merecedores de um redobrado crédito de confiança para começar tudo de novo e de novo e de novo. A revolução, afinal, não seria revolucionária se não revolucionasse a si mesma e à sua própria história, mudando de identidade após cada novo crime e cada novo fracasso e não tendo satisfações a prestar senão a um futuro que, quando chega, já não é mais futuro e não tem portanto qualquer autoridade para cobrá-la do que quer que seja. Tal é, brutalmente resumida mas nem um pouco deformada, a essência da mentalidade que se pode adquirir em qualquer universidade deste país e em muitas do exterior. Equivale a um atestado de impecabilidade congênita, que confere o direito à estupidez laureada, ao amor-próprio ilimitado e ao crime inocente. Não espanta que tantos a desejem, mesmo sabendo que a remuneração dos ofícios universitários já não é lá essas coisas. Aliás, ganhar abaixo do que desejam reforça ainda o seu sentimento de méritos incalculáveis e sua revolta contra a malvada sociedade capitalista que não recompensa adequadamente as pessoas empenhadas em destruí-la.” p.600

“O importante é não estudar por estudar, para “adquirir cultura” ou seguir carreira universitária, mas para encontrar respostas a questões determinadas, que tenham importância existencial para você, para sua formação de ser humano e não só de estudioso. É claro que as questões vão se definindo aos poucos, no curso das leituras mesmas, mas à medida que isso acontece elas vão definindo melhor o rumo dos estudos. E é essencial que, na ânsia de ler, não deixe sua acumulação de conhecimento ultrapassar o seu nível de autoconsciência, de maturidade, de responsabilidade pessoal em todos os domínios da vida. Se não é capaz de tirar de um livro consequências válidas para sua orientação moral no mundo, você não está pronto para ler esse livro. Não esqueça nunca o conselho de Goethe: “O talento se aprimora na solidão, o caráter na agitação do mundo.” p.603

“A inteligência não é o adorno do vitorioso, é o caminho da vitória. Não é a cereja do bolo, é a fórmula do bolo.” p.604

—— pp.605-612

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Mário Ferreira dos Santos – BRASIL — UM PAÍS SEM ESPERANÇA?

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BRASIL — UM PAÍS SEM ESPERANÇA?

Homenagem Póstuma

“Brasil — Um País sem Esperança?” é um manuscrito que nos deixou Mário Ferreira dos Santos, falecido em 11 de abril de 1968, aos 61 anos de idade. Publicamos este manuscrito inédito como homenagem ao conhecido Filósofo brasileiro, autor de mais de 70 obras filosóficas. Contendo alguns aspectos fenomenológicos do homem brasileiro, a presente pesquisa fica inserida na I Dimensão do Tema geral da semana Filosófica, como uma valiosa contribuição para a nossa reflexão construtiva.

O manuscrito foi elaborado nos anos de 1964/65, quando declarava o Pensador: ” . . . idéias pouco construtivas invadem o ambiente cultural brasileiro” e ” . . . atravessamos um dos momentos mais difíceis de nossa história” . Por conseguinte, o trabalho deve ser interpretado, colocando-se no quadro das circunstâncias daquela época.

Considerando a falta de preparo intelectual e cívico de nosso povo e desejando levar, sobretudo à juventude, o conhecimento de nossa realidade, o Prof. Mário Ferreira dos Santos escreveu esta obra como parte da coleção: “UMA NOVA CONSCIÊNCIA”, cuja finalidade era abrir novos horizontes à nossa consciência, uma consciência do Brasil. Ela seria completada com a obra: “Brasil, País de Exceção”, em uma seqüência de estudos referentes a nossa terra, que revelaria o caráter de excepcionalidade que é peculiar ao Brasil. Após uma análise em profundidade, quis finalizar com um vasto estudo concreto da realidade brasileira. Mas, infelizmente, só uma parte do manuscrito ficou terminada.

A morte surpreendeu o Pensador em seu trabalho. Entretanto, o que conseguiu no campo editorial, numa luta insana para despertar em cada brasileiro o interesse pela cultura, especialmente pela Filosofia, é a prova cabal de seu amor pelo saber. Justifica, pois, a homenagem póstuma que prestamos ao Pensador,
que dedicou quase 40 anos à atividade filosófica. 

I — PANORAMA GERAL DO MUNDO E DO BRASIL

A perplexidade do homem moderno em face do panorama do seu mundo, que se apresenta para ele não só comparando-o com o passado nem com as possibilidades do futuro, mas também, sobretudo, quanto à realidade do presente, é um tema que preocupa a todas as consciências no momento atual.

O desenvolvimento que verificamos no decurso da História, desde g, Idade Média, através do Renascimento, e da Idade Moderna, chamada a Idade Contemporânea, verificamos, sobretudo no Ocidente, que, à proporção que o ser humano foi encontrando soluções de cará-ter técnico e científico, que beneficiaram sumamente as populações e resolveram inúmeros de seus problemas, contudo as grandes e mais profundas preocupações continuaram de pé. O homem não conseguiu resolver a seu contento aqueles mesmos problemas que aguçavam a sua curiosidade, que desafiavam a sua inteligência, no referente não só ao sobrenatural como também quanto a sua própria realidade.

Sem dúvida nós observamos uma linha ascensional impressionante, que se deve ao progresso científico das grandes descobertas, não só sobre o nosso planeta como sobre o universo inteiro, como também as tremendas expansões dentro da própria alma humana, invadindo-lhe os mais recônditos lugares, onde parecia ser impossível que nós, com os meios de que dispúnhamos, seriamos capazes de penetrar; mas, simultânea e paralelamente ao desenvolvimento desses conhecimentos e dessas conquistas — porque a ciência se transformou, na mão do homem ocidental, numa técnica de domínio das coisas, do mundo e do próprio homem — os problemas mais agudos, mais exigentes, as perguntas que lhe aguçaram a curiosidade através dos tempos, continuaram em pé, não encontrando respostas satisfatórias de modo suficiente a apaziguar o seu espírito.

E, à proporção em que ele foi encontrando soluções para uma série de problemas de caráter técnico-científico, sua inquietação permaneceu e permanece, no referente ao que ele é, ao que ele significa, qual o seu verdadeiro papel e também o que o ultrapassa, o que o transcende, que continua exigindo-lhe respostas, um reexame das respostas religiosas e das respostas filosóficas, já que ele sente que a própria ciência não seria meio suficiente para lhe dar a solução desejada.

Também o aumenta de bem-estar, as conquistas materiais, que pareciam ser suficientes para dar ao homem um estado de tranqüilidade, de segurança, aumentaram a sua própria insegurança e ampliaram a faixa de preocupações; e o homem verificou que a paz, a verdadeira paz, a mais desejada, a mais profunda, não era alcançada em nenhum setor, nem no mundo econômico, nem no mundo sociológico, nem no mundo psicológico, nem no mundo religioso, nem no mundo místico.

Sem dúvida, não há conceito de que todos usem tanto e tão poucos saibam o que realmente significa como o conceito de paz. Para muitos a paz nada mais é que a ausência da luta cruenta entre os seres humanos, organizados ou não; a paz seria apenas a ausência do choque dos contrários, seria a ausência das oposições, seria apenas a estagnação, o que não é genuinamente o que se deve entender por paz.

Ora, se se estudar devidamente este conceito, como muitos o fizeram, e o fizeram em profundidade, verifica-se que ele realmente se funda na vontade e implica uma tranqüilidade na ordem, não, porém, necessariamente na aniquilação dos opostos, nem do choque das antinomias, nem do pólemos das oposições.

A paz implica, necessariamente, a concórdia; implica a união, ou, pelo menos, a cooperação dos opostos, para alguma realização, para a consecução de algo que não venha em prejuízo da natureza dos opostos; ou em suma, para atingir resultados que sejam convenientes à natureza dos oponentes. Se a paz entre os homens não pode evitar a nítida compreensão da justiça, também a paz dentro do homem não pode evitar a mesma compreensão.

Não nos adianta permanecer dentro de uma paz mera-mente aparente, uma paz dos túmulos. O que nós desejamos, e real-mente o desejamos, e é o que realmente devemos desejar, é a paz que se estabelece na feliz cooperação dos opostos, de modo a que os resultados obtidos sejam convenientes, benéficos aos termos que entram nessa oposição, e que possam, deste modo, não só ampliar os benefícios próprios, como estabelecer, também, bases mais seguras para a sucessão dos acontecimentos; não só dos oponentes, como do que venha a decorrer no desenvolvimento do tempo. Mas uma paz mais verdadeira e mais desejada que aquela que apenas nos tranqüiliza dentro do campo das coisas de que necessitamos, que cria uma tranqüilidade na ordem de consecução desses mesmos bens, mas, sobretudo, aquela paz que tranqüiliza a nossa mente, que dá serenidade ao homem, interiormente, aquela paz que sobrevêm quando o ser humano consegue compreender a si mesmo, saber qual o seu papel, ter uma noção clara do seu destino e ter confiança de que o que realiza, o que propõe, o que empreende não venham trazei amanhã, resultados adversos, perniciosos. A verdadeira paz é aquela que se funda, não só nos corações, não só na afetividade humana mas, sobretudo, na mente superior do homem, nas suas idéias, nas suas concepções, na sua maneira de interpretar as coisas.

Realmente esta foi sempre a aspiração do homem; ele aspirou à paz em toda a gama de suas possibilidades, e alcançar um desfecho que fosse a plenitude da tranqüilidade de sua alma, de seu espírito, de sua mente; aquela paz prometida na bem-aventurança de todas as grandes religiões dos ciclos culturais superiores, aquela paz que consiste, propriamente, no termo final anelado por todos os homens que se dedicaram ao estudo das nossas visões transcendentais.

O que é fundamental no ser humano é, sem dúvida, o sentir-se um ser inseguro e também o que é mais fundamental do seu anelo é a segurança. A insecuritas, tema tão profundamente analisado pelos místicos da Idade Média, é o index mais perfeito do que somos em nossa última realidade.

Porque somos deficientes, contingentes, sujei-tos aos azares dos acontecimentos, dispondo de meios defensivos mínimos, e ainda agravados pela nossa ignorância que faz com que nos sintamos inseguros, não só quanto ao nosso presente, mas, sobretudo, quanto ao futuro; este estado de insegurança nos acompanha desde que nascemos e certamente desde que fomos gestados. Mas depois que passamos por aquele estágio de certo amparo e de certa segurança de nossa vida intra-uterina, o próprio trauma do nosso nascimento a nossa súbita penetração no mundo que nos parece hostil, inóspito, contrário, deve-nos marcar profundamente este sentir da nossa insegurança e, desde então, não mais nos abandona, está presente em todas as nossas aspirações, está presente em todas as nossas realizações, porque tudo o que o homem fez, tudo quanto o homem construiu, tudo quanto imaginou tem sempre o estigma, da sua insegurança, a exigir-lhe soluções que possam diminuir e até terminar esse estado em que ele se encontra de verdadeira trepidação, de verdadeiro medo ante o seu estado atual e sobretudo ante o seu futuro.

O homem é, assim, também filho da insegurança. Não pode nem deve desprezá-la, porque não só é uma exigência invariante da sua natureza, como também ela constantemente o interroga e o açula para que encontre a solução de um instante que perdure, que ultrapasse o presente, que invada o futuro, e que lhe assegure aquele estado de equilíbrio, de concórdia, e de reconciliação que o homem deseja.

Não se poderia compreender essa ansiedade pela paz que anima todos, em todos os tempos, se nós não fôssemos, por natureza, seres inseguros, seres dominados pela insegurança, e também seres que, ao perscrutar o futuro, nem sempre dispõem de meios suficientes para poder saber o que devemos fazer para evitar os perigos que nos ameaçam, tanto os reais como, sobretudo, os imaginários.

A psicologia de profundidade deve, mais do que nunca, preocupar–se com esse tema, porque se, ao mesmo tempo, o ser humano se apresenta para nós como uma entidade contraditória, já que é sem dúvida anelante de paz e tranqüilidade, ao mesmo tempo é agressivo e contendor, ao mesmo tempo é contricante, parece-nos que ele se balança entre duas tendências primordiais, fundamentais, originárias: uma que aspira à paz, à tranqüilidade, à concórdia, e, ao mesmo tempo, a que aspira à luta, à discórdia, ao ódio, ao pólemos.

Não foram poucos os filósofos que, ao se dedicarem a esse estudo, estarreceram-se ante a grande messe de razões favoráveis à paz, mas também a grande messe de razões favoráveis à guerra. Viram que o homem era um ser que se balançava entre motivações opostas, umas que buscavam a concórdia, outras que aspiravam pela discórdia.

Então não souberam resolver esse problema ante essa oposição, concluindo uns que o homem é por natureza um ser pacífico e outros que o homem é por natureza um ser guerreiro. A verdade, porém, a mais profunda verdade psicológica, é aquela que sintetiza os opos-tos, que participa dos opostos, que é partirn partim.

É o homem, simultaneamente, um ser aspirante de paz, e um ser aspirante de guerra, um ser que aspira à concórdia e também à discórdia, um ser que ama e um ser que odeia. E essas oposições não podem ser liquidadas; todas as tentativas de destruir uma em benefício da outra malograram, porque quiseram violentar o que era da condição do próprio homem.

Em face dessa realidade, só nos cabe procurar a solução cooperadora entre os opostos, aquela que possa encaminhar-nos de modo que eles sejam convenientes à própria natureza do homem, não só considerado na sua estaticidade, mas também na sua dinamicidade, na sua cinematicidade; não só como indivíduo, mas também como componente de uma totalidade, de um grupo, de uma série, de um sistema e do universo cultural.

Essas oposições colocam o homem aparentemente numa situação insolúvel e parecem indicar que jamais encontrará uma forma de fazer coincidir os opostos numa realização cooperacional. Ê um postulado que exige uma demonstração apodítica, uma demonstração fundada em princípios sobre os quais não possa pairar a menor dúvida. E isto, esta demonstração, nenhum dos partidários dessa posição até hoje conseguiu fazer dentro das exigências rígidas,; de uma demonstração profundamente lógica e dialética.

Muitos poderão dizer, contudo, que também a prova dessa coope-ração entre os opostos não foi feita. Mas essa cooperação entre os opostos não exige tal prova, porque tem se evidenciado pela própria experiência humana. Temos encontrado na vida social humana a oposição entre os contricantes, o pólemos, contribuindo para realizar obras proveitosas. Contudo, nós não podemos deixar de reconhecer que a época em que nos encontramos se caracteriza por esse aspecto; o homem de hoje, como o homem de sempre, de todas as eras, aspira pela paz e, no entanto, também tudo faz para fomentar a guerra, a luta, a discórdia.

E ao verificar esse estado de coisas, e não sabendo como dar uma solução às suas condições, a essa inevitabilidade dos opostos ele entra em estado de desesperança, ou seja, não espera, não aguarda, não se detém antes de tudo com a certeza de que lhe dará de modo seguro aquele estado de paz por ele desejado. Esse é o verdadeiro panorama que encontramos no mundo atual; e a heterogeneidade, que ele revela, é apenas de caráter inconsciente.

Em alguns povos notamos que o ímpeto guerreiro ou pacífico é mais acentuado que em outros mas, extensivamente, se há um impulso de discórdia, de ódio, de guerra, há uma profunda aspiração da paz, que vem relatado, testemunhado, desde que temos consciência de nós mesmos dentro da história, por todos os movimentos de aspiração por um mundo melhor, em que os homens possam olhar face a face, olhos sobre os olhos, os braços estendidos de uns para os outros num amplexo fraternal, e que possam dizer com o coração e com as palavras: irmãos, somos amigos, trabalhemos juntos, construamos juntos um mundo melhor para todos nós.

Essas palavras incluem dentro delas uma longa problemática, que vamos começar agora a analisar nos próximos capítulos, para depois, de posse desses elementos tomados analiticamente, aproveitá-los para fazer um estudo concreto da nossa realidade, da realidade brasileira, e podermos dar uma resposta a essa pergunta: Brasil, um país sem esperança? [Continua…]


LINK ISSUU: Mário Ferreira dos Santos – BRASIL — UM PAÍS SEM ESPERANÇA?

via Mário Ferreira dos Santos – BRASIL — UM PAÍS SEM ESPERANÇA?

Joice vai lançar seu próprio Canal de Notícias

Em seu canal no YouTube, a Jornalista Joice Hasselmann explica o motivo de sua saída do programa Os Pingos os Is, Jornal político mais assistido da atualidade.

Sua lives no Facebook e YouTube ultrapassam a audiência na mesma faixa de horário.

Nesse mesmo vídeo a jornalista e empreendedora revela que estará apresentando um novo canal de notícias, nos moldes da Fox News, canal de notícias de maior audiência nos Estados Unidos.

Ela avisou que amanhã mesmo irá mostrar mais detalhes sobre o canal.

Vídeo completo no link abaixo👇

Controvérsias dentro da direita: Emerson Rodrigues

A bola da vez é o Emerson Eduardo Rodrigues (Setim) blog, que trabalha no ramo da tecnologia da informação e é ativista político, conhecido por falar demais e ter uma linguagem nada politicamente correta, para o ódio da esquerda e até dos desafetos dentro dos grupos de conservadores brasileiros.

Considerando que ele foi acusado e absolvido do caso resolvi postar aqui no blog que tem tudo a ver com o assunto as denúncias contra ele e as respostas mais relevantes que eu encontrei.

Tudo começa com um blog “Silvio Koerich”.

Links

Mídias sociais do Emerson

blog do Emerson link http://emersoneduardorodriguesdenuncias.blogspot.com.br/

Facebook link https://www.facebook.com/EMERSONEDUARDORODRIGUES1978?

 

Controvérsias

O senhor Carvalho divulgou um e-mail para o  Eduardo exercer o seu direito de resposta.

eSem título

O senhor Carvalho divulgou um e-mail para o  Rodrigues exercer o seu direito de resposta. http://pt.metapedia.org/wiki/Olavo_de_Carvalho#Emerson_Eduardo_Rodrigues

Controvérsia do fake luciano Ayan do Ceticismo político link http://emersoneduardorodriguesdenuncias.blogspot.com.br/2015/05/entrevista-que-luciano-ayan-apagou.html

 

Acusações

Operação Intolerância prende responsáveis pelo blog Silvio Koerich   http://www.pf.gov.br/agencia/noticias/2012/marco/operacao-intolerancia-prende-responsaveis-pelo-blog-silvio-koerich201d

Blog Machismo esclarecido   http://machismoesclarecido.blogspot.com.br/2012/09/entenda-polemica-do-silvio-koerich.html

Blog Pragmatismo político  http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/03/blogueiro-racista-homofobico-e-anticomunista-e-preso-pela-policia-federal.html

 

Dono de site racista pode ter participação em homicídios  http://oglobo.globo.com/brasil/dono-de-site-racista-pode-ter-participacao-em-homicidios-4393713#ixzz3EmJpR2sy

 

Blogueiro racista, homofóbico e anticomunista é preso pela Polícia Federal  http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/03/blogueiro-racista-homofobico-e-anticomunista-e-preso-pela-policia-federal.html

 

Preso por racismo tem longo histórico de crimes  http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/preso-por-site-racista-tem-longo-historico-de-crimes

 

Operação Intolerância prende responsáveis pelo blog Silvio Koerich  http://www.dpf.gov.br/agencia/noticias/2012/marco/operacao-intolerancia-prende-responsaveis-pelo-blog-silvio-koerich201d

 

Sanctos soltos voltar a aterrorizar a internet  http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/10/sanctos-soltos-voltam-aterrorizar.html

OAB quer impugnação de candidato que propôs “Kit macho” em horário eleitoral  http://odia.ig.com.br/eleicoes2014/2014-08-25/oab-quer-impugnacao-de-candidato-que-propos-kit-macho-em-horario-eleitoral.html

 

Entrevista com Matheus Sathler: o que é Kit Macho?   https://www.youtube.com/watch?v=PDYHFA8ri6c

 

Ironias

 

 

Atualizarei este post conforme os leitores e contatos me mandem mais informações a respeito da vida pública do senhor Eduardo Rodrigues.

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As 10 melhores maneiras de educar seus amigos esquerdistas no Facebook…

Por Diane Schrader

ou em qualquer outra rede social. [Eis aqui] apenas algumas leves considerações de domingo…Todos vocês são blogueiros, vocês sabem disso. Se possuem uma conta no Facebook, é-lhes oferecida uma oportunidade de expressar suas opiniões diante da plateia composta pelos amigos do Facebook. Mais de nós deveria estar tirando vantagem dessa oportunidade.

Porque, a menos que você preserve, zelosamente, a pureza ideológica da sua lista de amigos do Facebook, limitando-a apenas a outras pessoas que também limitem suas respectivas listas a conservadores, você está sujeito a “logar” um dia e encontrar algum comentário espetacularmente irritante e/ou completamente estúpido, ao qual você deve responder. E eu estou dizendo que você PRECISA responder. (Veja #10, abaixo)

Agora, isso pode causar alguns estragos porque, de acordo com minha experiência, discussões em forma de textos tornam-se agressivas muito mais rapidamente do que em conversas cara a cara.  A maioria das pessoas é bem mais educada pessoalmente do que quando protegidas pelo relativo anonimato da tela de seus computadores, e isso vale em dobro para os esquerdistas.  E mais: muitas vezes, você se verá respondendo aos amigos dos seus amigos, e eles podem, muito bem, ser pessoas que você não conhece e com quem jamais terá um encontro pessoal, o que pode elevar os insultos a níveis estratosféricos. Mas, munido com estas dicas, você pode ter uma troca de ideias gratificante, esmagar o esquerdismo e preservar a sua dignidade.

10. Não deixe nenhuma idiotice esquerdista passar em branco

Essa é a regra básica. [Eis] um exemplo de um dos meus amigos no Facebook depois das eleições de terça-feira:

“Estou vendo os resultados das eleições e estou bastante assustada.”

Quando me deparei com esse status, vários amigos dessa pessoa, igualmente insensatos, já tinham entrado na conversa, apresentando variações sobre o tema, como “Aterrorizado!” e coisas do tipo. Esquerdistas raramente sentem a necessidade de explicar tais respostas impensadas ou de postar um link que nos leve a algo que sustente suas opiniões. No Mundo Esquerdista, simplesmente declarar algo já lhe confere autenticidade. Pronunciamentos presunçosos e vagos são a tática favorita. Sua primeira resposta deve ser uma pergunta simples, formulada como se você estivesse simples e inocentemente pedindo esclarecimentos – nesse caso: “O que é assustador?”.

Rota alternativa: cortar [o mimimi], imediatamente, com sarcasmo: “Sim, acho que impostos mais baixos, mais empregos, uma economia melhor e menos desperdício nos gastos poderia ser francamente assustador”.

 9. Desafie-os nos xingamentos

Como eles possuem poucos argumentos coerentes, a você, frequentemente, será atribuído algum nome desagradável. Permanecendo no exemplo das eleições que eu mencionei acima, quantos comentários você acha que levaram antes de eu ser chamada de “teabagger”? [NOTA: trocadilho vulgar aplicado aos simpatizantes do “Tea Party” (Partido do Chá), movimento político-social ligado às ideias direitistas. Teabagging, por outro lado, é um ato sexual.] Se você apostou dois [comentários], ding ding ding! Acertou! Quando eu disse que usar uma ofensa sexual e vulgar não acrescentava nada à qualidade da discussão, o cavalheiro em questão ofereceu a resposta comumente usada [por um esquerdista]: a de que ele “não quis dizer isso”.

“Se você me conhecesse, o que não é o caso, e [não] estivesse simplesmente fazendo suposições, saberia que eu não quis dizer isso…. Um “saquinho de chá” (tea bag), na minha casa, é simplesmente isto: um saquinho de chá. Minha mente não foi tão longe. Um Partido do Chá (Tea Party) deve ser constituído por um monte de saquinhos de chá de qualquer forma, certo? …se não, como cada membro é chamado? Folha de chá?”

Você pode notar todas as deixas que ele me deu? O mais óbvio, é claro, é que as palavras têm significados e, se alguém está negando desonestamente esses significados, então qualquer chance de uma discussão significativa desaparece. Demorou algumas trocas e vaivéns cansativos para esclarecer isso para ele; ele era um educando particularmente lento. Se forem lançados xingamentos diretamente contra você ou contra pessoas que pensam como você, não deixe que essa loucura fique impune.

8. Desafie-os a falhar na resposta

Todo mundo fica cansado quando uma discussão já dura há algum tempo, mas, se for possível de alguma forma, mantenha-se firme até eles se renderem. Lembre-se, você tem argumentos mais numerosos e superiores. Eu penso que a maioria dos esquerdistas simplesmente desiste quando ficam sem resposta, o que é muito revelador para aqueles que presenciam a conversa. Você poderia permitir que alguém se retirasse quieta e graciosamente, mas eu sempre induzo uma saída provocadora. Exemplo: “Chega dessa merda [de discussão]!”

Não, eles não terminaram. Só queriam dar um soco de despedida, então devolva o favor. Pergunte qual a é a “merda” em debater um assunto. Mostre que parece que eles não têm mais provas das suas reivindicações. O que quer que você tenha que fazer, não deixe os desafiantes desistentes saírem dessa. E, se eles aparecerem de novo, depois de dizerem “Para mim chega!” (como eles quase sempre fazem) – sinta-se livre para dizer “Pensei que você tinha dito que ia sair da discussão!”

7. Desafie-os em acessos de raiva

Essa é para fazer o circo pegar fogo. É perceptível quando alguém perde o controle, porque uma birra verbal (ou virtual) é recheada de letras maiúsculas, pontos de exclamação e, geralmente, de uma profunda falta de gramática, ortografia ou lógica. Eles simplesmente disparam estas coisas em você:

Você é uma desgraça de ser HUMANO por que você não faz um favor ao mundo e se mata SUA V@DI@ FDP IDIOTA !!!!”

Poético, não? Nunca deixe que eles tenham a última palavra depois de uma afronta como essa. Essa atitude apenas encorajá-los-á a usar suas táticas de bullying em algum outro usuário do Facebook desavisado. De qualquer forma, por inúmeras razões, é crucial que você cultive uma atitude de zoação diante de tal acesso de raiva. Em primeiro lugar, isso te ajudará a evitar picos indesejáveis de pressão arterial. Em segundo lugar, vai impedi-lo de pagar na mesma moeda. É muito, muito mais eficiente exibir seu bom humor diante do descontrole emocional deles. Ainda que você sinta que está ficando com raiva, nunca os permita vê-lo suar. Vire o jogo contra eles: “Entendi. Será que alguém esqueceu os remédios hoje de manhã?” Permaneça o adulto no controle, indulgente e divertido. Você vai enlouquecê-los!

6. Desafie-os nas palavras de baixo calão

Nós já cobrimos isso de alguma maneira na seção sobre birras, mas vale a pena ressaltar que você nunca deve usar palavras de baixo calão, e, quando eles (invariavelmente) o fizerem, imediatamente use a postura de adulto indulgente que acabamos de descrever: “Ai, ai, ai! Alguém aqui precisa lavar a boca com sabão?”.

Rota alternativa: lembrete imediato e conciso de regra [básica]: “Palavras de baixo calão são sinal de um vocabulário limitado. Seja gentil e evite usá-las, já que são antitéticas em uma discussão civilizada”.

5. Desafie-os ao fugirem do assunto ou distraírem-se.

Às vezes, quando os esquerdistas estão perdendo uma discussão, eles tentam mudar o assunto. Isso pode ser realmente divertido se você imediatamente derrotá-los no novo tópico também, mas, geralmente, é importante lembrá-los rapidamente de que eles estão fugindo do assunto.

Outra situação frustrante é quando várias pessoas estão contribuindo para a discussão e os esquerdistas distraem-se (ou se fazem de distraídos) com um aspecto periférico mencionado na conversa. “Oh, eu adoro um bom pote de Earl Grey, mas meu marido gosta de Darjeeling[1]. Você pode trazê-los, gentilmente, de volta ao tópico em pauta ou, se demonstrarem humildade suficiente, você pode escolher deixá-los fugir. Essa tática pode, afinal, significar a tentativa deles de fazer uma saída elegante.

4. Desafie-os a descaracterizar suas declarações

Isso é muito importante. Certifique-se de ler cuidadosamente o que eles estão dizendo, e impeça-os de terem QUALQUER margem para reapresentarem suas posições (Você pode reapresentá-las, se desejar, porque é responsabilidade deles chamarem a sua atenção por isso – e eles quase nunca o farão). Não permita que eles mudem o significado de suas palavras ou façam suposições.

Na postagem sobre as eleições, eu pedi, inúmeras vezes, por um exemplo específico, substantivo, a respeito do que eraassustador nas eleições (depois de o meu oponente ter esgotado todo o “eu não quis dizer que você é uma teabagger”). Reproduzida aqui, em toda a sua glória original, eis a resposta:

“Qual ponto por você levantado na minha resposta gostaria que fosse acompanhado por fundamentação? Você levantou pouquíssimos pontos sobre os quais eu sinta que você se importe em ouvir o outro lado. Você deixou claro que apenas escuta um lado de uma questão, de qualquer forma. Acho que não sabia que estávamos discutindo alguma coisa. Nós estamos? O que nós estamos discutindo? O fato de que o resultado das eleições foram assustadores?”.

Eu sei o que está pensando: esse cara está abrindo a guarda! Às vezes, tem tanta brecha para atacar que não sabemos nem por onde começar. Estupidez absoluta é difícil de ignorar, mas, nesse caso, o ponto óbvio imediato que precisava ser destacado era que ele descaracterizou minhas declarações ao tentar me pintar como desinteressada pela sua opinião – quando, na verdade, eu tinha acabado de pedir a opinião dele. Simplesmente indicar isso foi a melhor resposta.

3. Desafie-os nas mentiras descaradas

Como já descrevi, a declaração original da minha amiga era que ela estava assustada com os resultados das eleições. Os outros amigos dela entraram na conversa demonstrando o quanto estavam horrorizados, e um disse que queria se mudar para o Canadá. (Tudo isso sem uma razão específica – apenas porque as eleições foram “assustadoras”). Logo depois do comentário irracional que dizia “o que estamos discutindo”, mencionado acima, a amiga [que fez a postagem] escreveu este disparate:

“Talvez seja inteligente reler meu post original. Eu nunca mencionei o ‘outro lado’ ou estar com medo de ‘inimigos’. Apenas estar assustada com os resultados das eleições… o que inclui, incidentalmente, o baixo comparecimento às urnas e uma série de outras preocupações que não têm nada a ver com um determinado republicano ou democrata”.

Hahahaha. Essa é muito fácil. Baixo comparecimento às urnas! Isso estava fazendo as pessoas quererem mudar para o Canadá! Desnecessário dizer, eu fui forçada a apontar a desonestidade terrivelmente óbvia da sua declaração.

2. Desafie-os em cada declaração inadequada

Às vezes, como em alguns dos exemplos que citei, existe tanto material para responder que você talvez fique tentado a deixar algumas coisas passarem. Isso, é claro, é um julgamento que depende de quão perto você quer se manter do seu ponto inicial. Mas eu gosto de colocá-los em uma situação constrangedora a cada comentário inadequado proferido.

Outra pessoa, no tópico sobre eleições (aparentemente só tem esquerdistas nessa lista de amigos), postou esta informação útil:

“Toda vez que eu leio sobre pessoas gritando sobre Estado inchado e impostos demasiados, meu marido e eu lembramo-nos imediatamente de que a maioria das pessoas não é muito inteligente. Estou chocada com a ignorância e a falta de profundidade que vejo”.

Por favor, note que, de acordo com a cartilha esquerdista, ela não oferece nenhum argumento a favor da sua opinião, mas, em vez disso, diz que (a) conservadores gritam, (b) ela e seu marido são mais inteligentes que a maioria dessas pessoas e (c) essas pessoas são ignorantes e superficiais.

É importante tirar um momento para apontar isso tudo.

1. Desafie-os a se sentirem “ofendidos”

Depois que apontei uma série de declarações inapropriadas feitas por outro escritor na questão da eleição (ver #2), finalmente chegamos ao ponto nevrálgico da indignação esquerdista – a oportunidade de se fazer de vítima ofendida. Nesse caso, o mimimi cansativo, mas totalmente previsível, veio da escritora original, que ME acusou de insultar os seus amigos. Nesse ponto, muitas vezes é útil fornecer um sumário breve da questão toda… algo como estas linhas:

 

  1. RB faz uma piada sobre o fato de as eleições serem assustadoras.
  1. PB diz que a situação é terrível e que ele quer se mudar para o Canadá.
  1. Diane pergunta o que é assustador.
  1. PB a chama de teabagger.
  1. Diane sugere que esse não é um argumento eficaz.
  1. PB diz que Diane não pode saber o que ele realmente estava pensando quando a chamou de teabagger.
  1. Diane diz que as palavras têm significado, e pergunta se ele vai responder a sua pergunta.
  1. PB diz que ela só se preocupa com a sua própria opinião.
  1. Diane observa, mais uma vez, que ela acabou de pedir justamente a opinião dele.
  1. RB diz que quando ela afirmou que as eleições eram assustadoras, ela quis dizer que estava com medo do baixo comparecimento às urnas.
  1. Diane ri histericamente.
  1. AC entra na conversa para noticiar que ela e seu marido são mais espertos do que todos os gritadores conservadores estúpidos, ignorantes e superficiais.
  1. Diane suspira e salienta que este também não é um argumento, mas simplesmente um ataque “ad hominem”.
  1. RB acusa Diane de insultar seus amigos, os quais, implícita ou abertamente, declararam que Diane é uma estúpida, ignorante, superficial, escandalosa, teabagger que não vai ouvir o outro lado. Embora eles nunca tenham declarado o lado deles.

Ahhh … Discutir com esquerdistas. Às vezes é como tirar doce de criança. Mas lembrem-se, quase sempre outras pessoas estão à espreita, lendo, e considerando. Fique tranquilo (fácil de dizer, difícil de fazer – eu certamente atingi minha cota de erros nisso) e tente ser a pessoa mais sensata. Os leitores que espreitam serão capazes de ver quem está apresentando pensamentos racionais, e quem está caindo em histerismo. Eu acho que quer dizer alguma coisa o fato de que, nessa discussão que usei como exemplo, alguns dos participantes voltaram no dia seguinte e apagaram todos os seus comentários. Aparentemente, mesmo eles, eventualmente, reconheceram quão tolos soaram. Ponto.

[*] Diane Schrader. “Top 10 ways to school your leftist friends on facebook”. News Real Blog, 7 de Novembro de 2010.

Tradução: Fernanda Ferreira

Revisão: Hugo Silver

Revisão Gramatical: Gleice Queiroz

[1] Earl Grey e Darjeeling são tipos de chá.

Via Tradutores de Direita

Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)

Os parâmetros curriculares nacionais não só dão as diretrizes do conteúdo como também informas algumas ações de intervenção de cunho cultural, ou seja quer definir até a cultura nivelando de cima para baixo.

Embora os Parâmetros Curriculares Nacionais estejam sendo atualizados, não podemos deixar os atuais Parâmetros Curriculares Nacionais no esquecimento. A formação acadêmica e as ementas da UNOPAR dão sim, suporte as ementas do ensino fundamental II dos Parâmetros Curriculares Nacionais, essa perspectiva de desenvolver a capacidade intelectual e estimular o desenvolvimento cognitivo dos alunos é a idéia que todos nós almejamos alcançar, de facto entendemos que no Brasil é difícil alcançar qualquer meta de aprendizado, pois o chamado construtivismo de Jean Piaget e Paulo Freire têm contribuído para a destruição da qualidade do ensino no país; pois essas idéias parte de premissas de que todos os alunos estejam comprometidos com o conhecimento das disciplinas, e que os professores não sejam conhecedores plenos das disciplinas ou dados relacionados ao conhecimento, id est uma inversão de valores cujo objetivo subliminar é de facto seja causar a confusão cognitiva nos discentes tornando a assimilação do conteúdo muito mais difícil do que realmente seria no método pedagógico dito tradicional. Esse construtivismo baseia-se na idéia a priori que somente a pedagogia atual funciona, o que testes internacionais comprovam o contrário e justamente esta aversão a experiência real faz com que o construtivismo seja auto contraditório já nas premissas. Podemos perceber as conclusões análogas na realidade deste sofisma como um fracasso total.

Sabemos que os alunos chegam do ensino fundamental I com defasagem cultural no conteúdo de aritmética, sobretudo em assuntos como divisões e frações, nós precisamos repor esses conteúdos já no início do 6º ano do fundamental pois é de extrema importância a dominação destes conteúdos simples e seus conceitos abstratos pois matérias como potenciação, racionalização teoremas de Pitágoras polinômios etc.

Os PCNs são hipócritas e mal elaborados por via de senso comum, o que é normal em documentos com tantos colaboradores, mas precisamos entender que ele não é um manual exato do processo ensino-aprendizagem. Temos que adaptar estes parâmetros à realidade de cada ano escolar, cada caso etc.

A escola tem um papel fundamental na formação do cidadão, e quanto mais qualidade na educação, mais qualidade o futuro profissional poderá aplicar no seu futuro trabalho, para garantir a qualidade da educação é preciso primeiro, planejar e executar o plano de ensino.

Os alunos são a causa de existirem os professores, que encaram problemas para encontrar soluções, professores são profissionais, a priori, capazes de desenvolver a prática da assimilação de dados por parte dos alunos. Portanto ao sermos alunos e professores cultivamos o saber, e usamos nossas curiosidades para modificar o nosso atual conhecimento através dos dados existentes somados a novas conjeturas e novas informações, transformando-os em novos dados (HEGEL).

No decorrer da história do ensino de matemática podemos observar a preocupação em ensinar as disciplinas de cálculo não apenas por obrigação da carta magna. No começo do ensino matemático no Brasil, a preocupação da didática matemática no Brasil esteve mais enredada com a formação de pessoas qualificadas ás ações patrióticas, como a guarda militar. Para esses profissionais poderem usar esses conhecimentos matemáticos na construção das então fortificações, que já cairiam em desuso ou mesmo o uso de ferramentas de artilharia. Mais tarde já no século XIX com relativo aumento dos números de escolas, O Colégio Pedro II foi o padrão a ser seguido, e por isso considerado o estimulador de outros posteriores, e até o século XX ainda teve bastante influência, foi quando começou a surgir editores dedicados a matemática as massas, com o tempo cada vez os livros didáticos no país vão tornando-se mais completos.

Entretanto a partir da década de 1960, quando o regime militar assumiu o poder executivo, os membros Partido Comunista que haviam estudado Antônio Gramsci, estavam executando a estratégia de infiltração de intelectuais nas diversas instituições do país, com maior ênfase nas universidades, mudando até o vocabulário e destruindo o idioma para impor sutilmente o chamado “intelectual coletivo” no pensamento brasileiro(CARVALHO, 2014), que é justamente mudar os pensamentos do povo brasileiro sem passar pela discussão de idéias, obtendo maior sucesso a partir da década de 80 por intermédio do bem influente pedagogo marxista, Paulo Freire entre outras organizações. Hoje há a acuidade geral de que o ensino básico do Brasil é ineficiente, faz o brasileiro ficar cada vez mais desacreditado no governo. Os profissionais da educação se vêem dificuldades como a confusão generalizada, provocam greves por motivos forçados e duvidosos como: abono salarial; gerando invasões e vandalismos, que é a luta de classes de facto, como em São Paulo, por exemplo, nas ocupações; e em Curitiba onde os professores mais bem pagos do país se dizem injustiçados.

A decadência da qualidade no ensino com o tempo se deteriora tanto que não se pode nem ensinar a ementa selecionada por falta de conhecimentos de dados necessários a assimilação do conteúdo dessas novas ementas. Os professores ficam desmotivados quando não há conhecimento algum, antes há desrespeito e atrito, muitos alunos não sentem a necessidade de se esforçarem, por tanto, ambos, docentes e discentes, podem sentir que é normal esses problema, e pensam que é assim e nada há que possa ser feito pra mudar esse problema colossal.

No decorrer da carreira os educadores adiquirem mais qualidade através da experiência, já não é um desafio para quem sabe enxergar, perceber o fracasso da pratica didática seguida com base nas normas e teorias da LDB e de filósofos como Paulo Freire e Jean Piaget. Esse fracasso está mais do que provado, tanto em testes internacionais, quanto no cotidiano onde até estudantes universitários são analfabetos funcionais, quiçá pessoas com mestrado. Então torna-se difícil para os que possuem o dever de educar sem ter a dita “autoridade tradicional”, ou seja; ser dominante do conhecimento específico que neste caso é a matemática, eles são rejeitados como ultrapassados, a aversão ao professor tradicional só tem contribuído de forma negativa para a pedagogia matemática.

Precisamos rever conceitos, sim, mas não sepultar métodos que funcionam em todo o mundo, contudo a atividades aliadas a criatividade e motivação.

 

O importante é não estudar por estudar, para “adquirir cultura” ou seguir carreira universitária, mas para encontrar respostas a questões determinadas, que tenham importância existencial para você, para sua formação de ser humano e não só de estudioso. É claro que as questões vão se definindo aos poucos, no curso das leituras mesmas, mas à medida que isso acontece elas vão definindo melhor o rumo dos estudos. E é essencial que, na ânsia de ler, não deixe sua acumulação de conhecimento ultrapassar o seu nível de autoconsciência, de maturidade, de responsabilidade pessoal em todos os domínios da vida. Se não é capaz de tirar de um livro conseqüências válidas para sua orientação moral no mundo, você não está pronto par ler esse livro.” (CARALHO, pág. 581 parag. 2)

 

Impulsionar a motivação não é algo fácil, requer tempo e qualidade por parte do sujeito, a arte de ensinar a matemática é uma dádiva que o docente aprende com o tempo. O plano de aula é um adendo que deve ser interpretado diariamente pelo docente, deve incluir ali, as prováveis dificuldades em aritmética e pré-álgebra, das dificuldades encontradas em aulas anteriores antecipando a resolução de dúvidas sobre a interação de dados e de termos técnicos, ambos para intervir e decompor as dúvidas e transforma-las em certezas matemáticas, que configuram no conhecimento pleno do dados finais.

 

Eu mudei uma frase de Ludvig von Mises a tornei-a assim “Investigar é criar conjeturas sobre dados, estabelecer várias hipóteses através das ilações sobre o que se propôs no início, contudo ainda serão ilações. MISES 

“Com relação a problemas ainda não resolvidos, podemos formular diversas
hipóteses, desde que não contradigam a lógica ou conhecimento incontestáveis.
Mas serão apenas hipóteses.” (MISES)

 

“Todo homem por natureza deseja conhecer.” (AQUINO Apud ARISTÓTLES)

 

“Experimentai de tudo, e ficai com o que é bom” (PAULO)

A origem das opiniões dominantes

Por Olavo de Carvalho

O idiota presunçoso, isto é, o tipo mais representativo de qualquer profissão hoje em dia, incluindo as letras, o ensino e o jornalismo, forma opinião de maneira imediata e espontânea, com base numa quantidade ínfima ou nula de conhecimentos, e se apega a seu julgamento com a tenacidade de quem defende um tesouro maior que a vida. A rigor, não tem propriamente opiniões. Tem apenas impressões difusas que não podendo, é claro, encontrar expressão adequada, se acomodam mecanicamente a qualquer fórmula de sentido análogo, colhida do ambiente, e então lhe parecem opiniões pessoais, como se a conquista de uma autêntica opinião pessoal prescindisse de esforço.
O trajeto mental mesmo que o levou às suas preferências inabaláveis lhe escapa totalmente, por ter sido percorrido à margem da atenção consciente. Literalmente, ele não sabe por que nem como veio a pensar como pensa. Quando lhe perguntamos a via pela qual chegou a tais ou quais conclusões, ele nunca responde com uma introspecção rememorativa, como tentaria fazê-lo o intelectual sério. Improvisa duas ou três justificativas e as incorpora retroativamente à sua auto-imagem, acreditando que sempre pensou assim. Confundindo o presente com o passado, sua autobiografia mental é fictícia, por isto está sempre pronta para ser alterada e justificar qualquer coisa. Quando as justificações se tornam rotineiras e coincidem mais ou menos com coisas ouvidas ou lidas, produzem um sentimento de coerência e solidez.
Não espanta que, diante de uma opinião que lhe desagrade, ele creia instantaneamente que ela se formou como as suas: da preferência emocional para o julgamento dos fatos, nunca ao contrário. E quando lhe mostramos algo dos dados e comparações que fomos trabalhosamente juntando para pensar como pensamos, ele imagina que estamos apenas inventando pretextos a esmo, na hora, para vencê-lo e humilhá-lo, para lhe impor nossas escolhas subjetivas, nossas crenças cegas, nossos “dogmas” como ele tão facilmente os rotula sem notar que inverte o sentido da palavra. Incapaz de recordar seu próprio trajeto interior, como poderia ele revivenciar imaginativamente o nosso? Quanto mais fundamentadas as razões que apresentamos, mais ele as entende como exteriorizações de uma vontade irracional. E, evidentemente, se acontece de nossas opiniões serem minoritárias e inusitadas, e as suas respaldadas na crença comum de um grupo social, aí sua incompreensão radical dos nossos argumentos se vê fortalecida pelo sentimento de ser a voz da razão em luta contra o fanatismo cego e a loucura. Nesses momentos ele pode apelar à louvação convencional da “dúvida” e do “relativismo”, que, desligados da experiência interior correspondente, se tornam eficientes vacinas contra o convite ao auto-exame socrático. Pode também, caso se sinta acossado e inseguro, emitir a nosso respeito um diagnóstico psiquiátrico, usando algum termo técnico recém-ouvido, que embora totalmente deslocado da situação – e às vezes do sentido próprio da palavra — lhe dará uma reconfortante sensação de normalidade e, em geral, encerrará a discussão.
É assim que funciona, hoje, o cérebro de um típico “formador de opinião” brasileiro. A diligência na busca da verdade, o auto-exame constante, a luta com a complexidade dos fatos e com a obscuridade da própria alma lhe são totalmente desconhecidos. O verdadeiro fundamento de suas opiniões é sua falta de autoconsciência. Sua utilidade social e a razão do seu sucesso residem no fato de que ele mantém em circulação o estoque de fórmulas convencionais, colocando-as à disposição de outros indivíduos intelectualmente passivos, que necessitam delas para revestir mal e mal suas próprias impressões subjetivas e adquirir com isso uma ilusão de que sabem do que estão falando. A mera assimilação imitativa do linguajar “culto” torna-se assim o substitutivo cabal da educação para o conhecimento. Pessoas assim formadas não dizem o que percebem nem julgam o que dizem: acreditam no que conseguem dizer, pelo simples fato de que não saberiam dizer outra coisa.
O curso dos acontecimentos históricos reflete o tipo de personalidade dominante em cada época, e a expressão mais clara da personalidade dominante é o estilo da vida intelectual. O declínio abissal da moralidade pública no Brasil não é
causa sui : foi antecedido e preparado nas escolas, nos jornais, nas editoras de livros. A atividade intelectual no Brasil se deteriorou e se prostituiu a tal ponto, que mesmo o discurso formal do jornalismo e da comunicação acadêmica – para não falar daquilo que um dia foi a literatura — já não serve de instrumento para a autoconsciência. A linguagem dos publicitários e dos cabos eleitorais tomou tudo. O alvoroço de simular bons sentimentos e demonizar o inimigo pela via mais fácil bloqueia toda possibilidade de reflexão séria sobre as próprias palavras. O sujeito lê o que escreveu ontem e não percebe que hoje está escrevendo o contrário. A impressão do momento é tudo, o senso de continuidade autobiográfica – para não falar da consistência lógica — se dissolve numa sucessão minimalista de lampejos inconexos. Com ele, vai embora toda aspiração de responsabilidade intelectual, mesmo vaga e remota. A coesão emocional do grupo – tão inconsistente nas suas idéias quanto qualquer dos indivíduos que o compõem – torna-se o sucedâneo vantajoso da coerência. Vantajoso porque não dá trabalho e infunde no sujeito uma impressão de solidez absoluta e inquestionável, enquanto toda coerência genuína é um equilíbrio precário gerado na luta para vencer as contradições. Agora não há mais contradições. Foram abolidas pela solidariedade grupal, onde a mudança em uníssono se torna uma espécie de continuidade, a única possível em tais circunstâncias.
Esse estado de coisas transparece em mil e um detalhes do dia a dia. Um dos mais interessantes dos últimos tempos é a facilidade, a desenvoltura com que jornalistas, intelectuais e políticos de esquerda, até ontem alinhados firmemente com o que quer que viesse do governo petista, aparecem de repente esbravejando contra o desarmamento civil e fazendo a apologia dos “direitos individuais” como se tivessem sempre pensado assim, como se não tivessem colaborado ativamente, com devota obediência, para a construção do Golem petista e a dissolução do individual no estatismo coletivista. Luís Fernando Veríssimo, Jô Soares, Mauro Santayana e o PSTU inteiro repetindo com a maior naturalidade argumentos que parecem saídos diretamente dos boletins da National Rifle Association são exemplos na infinita plasticidade de caráter da elite esquerdista nacional, um fenômeno que não consigo explicar para os americanos de jeito nenhum.
Pelo menos a turminha do PSTU teve a prudência de amortecer a mudança hipócrita com uma mentira compensatória: inventou que o desarmamento é um truque sujo dos americanos para facilitar a invasão do território nacional, e com um firme sentimento de coerência saiu vociferando a apologia do “Não” como quem perseverasse fielmente numa doutrina já mil vezes reiterada.
Chomsky na “Folha” e no mundo
O Brasil inteiro perdeu a vergonha na cara, mas os garotos da Folha de S. Paulo nunca tiveram mesmo nenhuma e por isso ficam tão bem no quadro presente. “Chomsky é declarado o maior intelectual do mundo”, proclamam os safadinhos na edição do último dia 18, em cima do despacho da France-Presse que dá os resultados de uma enquete promovida entre vinte mil leitores pela revista inglesa
Prospect . Entre o título e a realidade, a distância é imensurável.
Para começar, a revista não perguntou “qual o maior intelectual do mundo” e sim “qual o intelectual público mais influente do mundo”. As diferenças são duas: “intelectual” tout court não é a mesma coisa que “intelectual público”, e “maior” não é a mesma coisa que “mais influente”.
O rótulo de “intelectual” aplica-se a qualquer pessoa envolvida em trabalhos de ciência, arte, filosofia, ensino, jornalismo etc. Sua gama de significados abrange desde os gênios criadores que moldam a cosmovisão dos séculos até o exército anônimo e inumerável de retransmissores, copiadores, etc. O “maior intelectual” não poderia em hipótese alguma estar entre estes últimos, porque a grandeza no seu ofício consiste justamente em fazer sozinho algo que muitos deles juntos não teriam força para fazer.
“Intelectual público” é termo preciso que diferencia, no conjunto dos intelectuais, aqueles que rotineiramente opinam sobre as questões do momento e o fazem através de canais de comunicação de amplo alcance. O professor que analisa uma crise política para os alunos em sala de aula não é um intelectual público, assim como não o é o grande estudioso de problemas demasiado afastados do foco de atenção popular, mesmo que trate deles em artigos de jornal, mesmo que dê algum palpite esporádico a respeito em debates na TV e mesmo que alcance, no domínio da sua ocupação especial, aquela máxima celebridade que faria meio mundo apontá-lo no meio da rua. Nem as crianças desconheciam Albert Einstein, mas isto não o tornava um intelectual público, porque sua intervenção em debates públicos era rara e ocasional. Para ser um intelectual público, é claro, o sujeito tem de ser primeiro um intelectual, grande ou pequeno. Mas não pode sê-lo se a interferência nessas discussões não é uma de suas atividades essenciais e costumeiras. Pensadores enormente influentes, como Arnold Toynbee e Martin Heidegger, nunca foram intelectuais públicos, porque sua influência não foi exercida diretamente através dos meios de comunicação de massa, mas chegou até o público pela intermediação dos círculos acadêmicos.
O que constitui o intelectual público não é a publicidade apenas: é a publicidade constante e rotineira, incorporada aos seus meios usuais de trabalho.
A pergunta “Qual é o intelectual público mais influente do mundo?”, portanto, não visa a medir a relevância intelectual e nem mesmo a fama de um determinado homem de idéias, mas a intensidade e a extensão da sua influência como força política constante.
Ninguém ignora, por exemplo – e escolho propositadamente dois pensadores que a mim não me dizem nada — que o pensamento de Heidegger foi decisivo para a formação das idéias de Jean-Paul Sartre. É a diferença entre o mestre e o epígono, o desbravador e o seguidor ou adaptador. Também ninguém ignora que Sartre atraiu muito mais atenção popular do que esse seu guru. Heidegger era mentor de filósofos, Sartre de ativistas estudantis. O próprio Heidegger marcou bem essa diferença, quando, solicitado a receber a visita do discípulo francês, respondeu: “Não atendo jornalistas.” Num concurso de influência filosófica, ou intelectual no sentido próprio, Heidegger só perderia para seu mestre Husserl. Sartre nem entraria no páreo. Mas Sartre era um intelectual público, e Heidegger não. Muito menos Husserl.
Mutatis mutandis , o filósofo Leo Strauss, um gênio incomum, não foi conhecido em vida senão por um seleto círculo de estudiosos, através dos quais sua influência foi se alastrando postumamente entre intelectuais, jornalistas e políticos até que o “straussismo” se consolidasse como doutrina oficiosa de uma facção dos conservadores americanos. Essa facção tem hoje representantes no governo e na mídia que usam o que aprenderam com Strauss para analisar e debater as questões do dia. Paul Wolfowitz e William Kristol são intelectuais públicos. O homem que formou a mentalidade deles jamais o foi.
Dar à pergunta sobre qual o mais influente intelectual público o sentido de “quem é o maior intectual” resulta em colocar William Kristol e Paul Wolfowitz acima de Leo Strauss.
É isso o que a Folha faz com a pesquisa. Modifica tão radicalmente o seu sentido que chega a invertê-lo. Posso assegurar isso com toda a certeza pelo simples fato de que eu mesmo, leitor costumeiro da Prospect , fui um dos vinte mil votantes, preenchi o formulário com minhas próprias mãos e decerto teria votado de maneira muito diversa se a eleição fosse a do maior intelectual do mundo. Tal como a questão estava formulada, a vitória de Chomsky era inevitável, porque, quantitativamente, ele é o intelectual de maior presença na mídia, o mais citado em trabalhos estudantis nos EUA e o de mais permanente atuação em campanhas políticas desde há quarenta anos. Ele é, ademais, o único que se dedica a isso com tanto comprometimento — muito acima de suas ocupações nominais de lingüista nas quais há décadas não produz nada de interessante –, que chega a ter para isso um corpo permanente de colaboradores, redatores, editores, tradutores, divulgadores e public relations profissionais. Eles o acompanham por toda parte, gravando cada palavra dele e transformando tudo em livros que são publicados simultaneamente em dezenas de idiomas com aparato publicitário inigualável, reforçado pela rede multinacional de ONGs organizadas em torno da militância chomskista. Se vocês examinarem a bibliografia do homem, notarão que há mais de duas décadas quase tudo o que ele publica é fabricado assim. Chomsky é não apenas o intelectual público por excelência, é alguém que deu a essa atividade um sentido de organização profissional acima de tudo o que se conhecia antes na área. Nem mesmo Voltaire, o Chomsky do século XVIII, teve uma infra-estrutura tão sólida e tão vasta à sua disposição. No mínimo, ele teve de escrever pessoalmente cada palavra dos cento e tantos volumes de suas Obras Completas . Chomsky apenas ejeta pela boca a matéria-prima. A indústria faz o resto. Por esses detalhes mede-se a hipocrisia do sujeito quando, notificado da vitória, declarou que “não presta atenção nessas coisas”. Na verdade, ele nunca presta atenção em nada mais.
Numa competição para nomear “o maior intelectual”, Chomsky talvez fosse cogitado nos anos 70, quando sua “lingüística geracional” ainda parecia uma descoberta substancial. Há três décadas paralisado por uma esterilidade científica completa enquanto sua velha teoria naufraga num mar de contestações (v. “A Corrupted Linguistics”, por Robert D. Levine e Paul M. Postal, em The Anti-Chomsky Reader , ed. Peter Collier e David Horowitz, San Francisco, Encounter Books, 2004), Chomsky defendeu firmemente sua posição de “intelectual público” ao ponto de já não poder ser considerado senão isso e nada mais. Talvez por essa razão a
Prospect teve o cuidado de não apenas distinguir entre “intelectual” e “intelectual público”, conceitos que a
Folha embaralhou, mas também de não designar a posição de Chomsky na votação com a palavra “greatest” e sim com “top”, que não tem a conotação solene associada ao termo “maior”.
Porém a Folha de S. Paulo não se contenta com inverter o sentido da notícia. Mesmo diante do resultado da pesquisa, a Prospect teve a precaução de não tomar a preferência de seus vinte mil leitores como expressão da unanimidade mundial. Na capa do seu número 116, de novembro, que publica os resultados da pesquisa, o reconhecimento de Chomsky como intelectual público mais influente do mundo não é afirmado como verdade mas atenuado por um eloqüente ponto de interrogação, que a Folha suprimiu para transformar a possibilidade em fato consumado, ocultando dos leitores que fez isso por decisão própria e não da Prospect .

Publicado no Diário do Comércio, 24 de outubro de 2005.